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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dois segundos.

Eu sei, o tempo é relativo. Mas comparado a uma existência inteira e sem sentido alguns momentos valem mais que qualquer eternidade forjada ou lábios incompletos. Eu sei que falo demais. E quando você me perguntou se eu queria ir embora...nada consegui dizer. Não conseguia, meus dentes encostavam meu lábio inferior. Os músculos da minha face empurravam o meu maxilar. O lábio sangrava desacerbadamente. E você parada ali olhando, por dois míseros segundos.
Quantas pessoas morreram em dois segundos?
Quantas viveram em dois segundos?
Quantas coisas dá para fazer em dois segundos?
Quanto tempo dura dois segundos?
Tento compreender o que minha cabeça grita com meu corpo. Os sentidos parecem um terremoto, tudo treme. A mente não parece processar o que sentia, nenhuma palavra poderia descrever meu sangue escorrendo devagar do lábio inferior até a ponta do queixo, a gota maior que puxava o sangue havia desenhado um pequeno "s". E você continuou ali parada, me observando. Talvez nossos momentos serão lembrados assim, por um instante me sentí desarmado e indefeso.
Existiria algo que pudesse nessa terra inteira durar mais que dois segundos? 
Agora parece que o agora é aquele tempo. E aquele tempo parece tanto com agora. Diáspora do destino você diz. Eu nunca soube o que dizer, mesmo quando falo demais, quando tento exemplificar o que é inominável. Assim chega a doer. Tantos "s" que poderiam agora ser escritos, tantos...
E aquele momento que me foi mais real, não passou de dois segundos.
Dois segundos.
Uma vida.

domingo, 22 de novembro de 2009

Dead Letter

Carlos,


Eu sei que você nunca me escuta, sei que nunca lê minhas cartas. Essa é uma ultima tentativa, e na verdade não é nenhuma tentativa. Aqui eu fico, nervosa como sempre e extremamente irritada com esta sua conduta nojenta. Ah, você nunca liga, nunca se importa, nunca nada. Sentei agora a pouco nesta cadeira, sei que estava por aqui não faz muito tempo, e acendo um cigarro atrás do outro e como sempre você dizia "fumar mata". Devo dizer que você tem razão, mata! Mata o tempo que passava sentada aqui esperando quem nem sequer saiu e por muitas vezes jamais voltou. Mata, pois seu sangue é sujo, tem um gosto ralo e nenhum cigarro compara-se a esta vida que tenho. Essa miséria a qual devo agradece-lo por ter me proporcionado. Alguns longos anos colocados no fundo de uma lata velha e enferrujada de lixo! E em breve você fara companhia, aos meus cigarros fumados até o filtro, as minhas unhas que não paro de roer e até o papel que outrora escrevia cartas para você. Acabarão todos juntos. Bem enfiados em uma lata velha, carregadas por um lixeiro com a pele suada de tanto juntar sacos que nem sequer podem ser comparados à sua pessoa, pois são bem melhores e servem para algo.
Carlos, essa carta não é tão para você. Ela é para mim. Ela é para quem quiser ler. Estou muito cansada dessa exposição, de ser a "garotinha do papai" como me falava. É, algumas mudanças sutis não podemos reparar, mas as grandes mudanças até uma sombra pode perceber e a minha já tinha me alertado para isso. Há tanto indizível, não é? Aquelas noites que jamais voltarão, aqueles momentos que permacem estagnados em uma banheira cheia de água e gelo. Toda vez que me banho, lembro destes mero detalhes que sempre lhe passaram desapercebidos. Assim como agora, este último. Você jamais imaginaria que eu estaria aqui. Jamais! Me chamava de covarde, de fraca. Zombava da minha fragilidade que para mim era uma qualidade e para você foi um instrumento de impávida vileza. Agora, fumando meu último cigarro, já escuto as sirenes. Escuto, Carlos. Elas gritam e eu estou cagando para elas. Sigo fumando. Afinal é meu último cigarro. E vou finalizando minha última carta para você. Sei que não lerá, sei que nunca leu. E agora que estás morto no sofá com a faca que lhe dei de presente e nem sequer ouvi um "obrigado". Devo dizer que nunca lhe vi tão bonito, ah Carlos essa faca realmente caiu bem em você. Felizmente esta carta não será desperdiçada, afinal você está tão morto quanto me fez sentir antigamente. Obrigado por não existir e me sentir viva com você uma única vez. Agradeço por este momento.
As sirenes berram.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Matando tempo.




A rotina de exames estão me matando, pelo menos tenho tempo para desenhar. Este saiu durante a espera de um exame psicotécnico e biometria. (imagina se fosse lá dentro, hein?)
(risos)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Diga-me com quem andas, te direi quem és.


Aprecio esse ditado. Nele mostra-se uma grande quantidade de sabedoria e vivência popular. Talvez eu seja por demais crítico e ou (in)tolerante demais. Mas, ao olhar a meu redor seleciono muito bem com quem compartilho ou não. Digo, nem sempre acerto, que a pessoa é subproduto do meio que ela vive. E não adianta não podemos fugir disso. Os arquétipos estão ali, e são na sua grande maioria comuns. Volta e meia aparce um diamante bruto no meio a caverna densa e escura. Pense assim, ou ele se lapida ou continua bruto para sempre. O problema que muitos aindameioquelapidados parecem lapidados, e ai reside o tormento.
As aparências, nos anos que vivi e passei o mais comum é ver pessoas que são aquilo que são, ou as pessoas que "mudam" para ser aceitas. E isso não é só no "mainstream" o convencional se esconde menos que "inusitados" que aliás nada tem em inusitado ou extraordinário o fato de alguém ser de carne e osso.
A humanidade cansa.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Aparências - além da visão.





Existem coisas que vão além do que os olhos podem ver. A visão de fato apenas nos impede o raciocínio algumas vezes. "Qual sua tragédia?" "Qual seu nome?" "Quem é você?". Essa "estranheza" vai além do que os olhos podem ver. O momento deferido, a hora morta. Mas, há algo que puxa nas entranhas do ser, uma força maior.
O mundo um rio de possibilidades embora meu ceticismo diga que tudo é aleatório, existe sempre uma certa ordem no caos. Penso que alguns ciclos se auto-renovam em si mesmos enquanto outros apodrecem lentamente. Como o lamento aos mortos, ou ao contemplar algo com aquela carinha de dejá vu.
Ai tu pensas:

-Ah, pode ser o cigarro ou café.

Escuridão não é uma coisa ruim (e nem boa) é apenas a ausência de luz. Veja bem, não gosto de luz pois irrita meus olhos. Pela lógica para mim, luz é algo ruim. E como tudo é opinião, e o blog é meu, prefiro o escuro. Embora pareça algo desacerbadamente cliché, há um certo charme nas partes que ficam escondidas. E a luz revela demais, imperfeições que são imperceptíveis no umbral.
Nada é perfeito.
Nada é eterno.
E nada é perfeitamente eterno.

Porém, existem alguns intanstes que são. Ora tormento, ora gozo. E a repetição cria uma fábrica do eterno.
Assim como todos não sou transparente.
O individual anda abalado.

Existence fails...
Tomorrow prevails...

Anyway...
Ando muito desconsertado mesmo.

domingo, 18 de outubro de 2009

Desprobalidades

Aquela noite reverbera dentro de mim. Foi a ultima vez que eu a vi, mas de certa forma foi a ultima vez que me vi também. Ah, simplesmente não sei explicar. Eram tempos difíceis eu andava sem dinheiro, e ela sem muita paciência . Estranho que quando ela estava aqui costumava sentar sobre minha cama, com as mãos no cabelo, com aquele ar de intocável. Aquilo era só a casca dura. As mãos desenhavam ondas pelos cabelos negros, o pescoço apontava para um lugar o qual não gostaria de estar. Eu ficava ali parado olhando ela se perder enquanto eu já perdido afogado na visão dos seus cabelos.
Aquilo tomava conta de mim, era como se me enchesse de desespero por saber que aquilo esgotaria cedo ou tarde. Sabia que nunca ia ser para sempre, e sabia também que o dia acaba, e que temos que dormir. Eu sabia! Mas estava cagando para tudo isso. Eu ficava ali, vendo meus sonhos de infância se inflarem e estourarem na minha frente como balões cheios de água. E aquela água toda ia direto na minha cara.
Essa noite sentei na cama, tentei mexer nos meus cabelos. Não era a mesma coisa. Mesmo quando tinha colocado um espelho na minha frente para que de repente emulasse a sua presença aqui. Ah, como sou estranho. Minhas mãos imitavam o ritmo, minha mente fazia o resto. Mas o mais importante, não estava lá: Sua presença.
O tempo corre bem quando estamos nos sentido mal. Algo inexplicável já que deveria ser o contrário. Ela é uma presença fictícia porem mais real do que eu mesmo aqui segurando as pontas dos meus cabelos que nem sequer lembram os dela.
Alias nada em mim a lembra. Nem o espelho, os gestos. Absolutamente nada.
À noite fico olhando pela janela buscando respostas, mas nem sequer existem perguntas. Acendo alguns cigarros, provo de vinhos baratos. Mas como já disse e você bem sabe. Nada é igual. Não passa de realidades alteradas para que satisfaçam alguma lacuna que nunca será preenchida, a não ser pelo que é real. E o real... é distante demais daqui.
Volto para uma noite antes. Estávamos sentados sobre a mesma cama. Ela olhava a janela, eu a olhava. A via como um ser mais importante que eu aquele dia.
-E então, você vai me deixar – Ela disse.
-Não.
-Vai sim. Está na sua cara! – Sorriu.
Acendeu um cigarro enquanto me via com cara de cordeiro atingido por uma flecha. Ria como uma louca. Ao mesmo tempo que tinha certeza que era escárnio, sabia que era um desespero além do normal. Era pânico. Medo de que nada mais desse certo. Ela chorava e eu tentava sentir algo. Apertei minhas sobrancelhas, fiz de tudo mas não consegui chorar por fora. Dentro de mim havia um pânico maior. De que adianta externar lágrimas se por dentro eu me afogava em tristeza. Ela sorria e chorava.
Meu cigarro escorria pelas pontas dos meus dedos, meus olhos já haviam secado enquanto ela vestia-se com suas roupas velhas e seu medo.
Ela saiu. Voltou no outro dia. E eu que nunca mais voltei. Me sinto perdido desde o momento em que a encontrei e não consegui voltar aonde eu estava.
E na janela passo meus dias.
Tento reencontra-la e a mim mesmo.

Ex-machina


Os retratos nas paredes te convidam à uma refeição com os mortos. Ao longo do corredor escuro, que tem uns quatro metros e meio, estão todos ali enfileirados. Me observam e estão de uma certa maneira mais vivos do que eu. A maneira como fitam meus olhos e a mim é como se eu fosse o quadro. Estou parado, mas meu rosto desliza sobre meus ombros e minhas pequenas mãos agarram o que sobrou de mim:
-Nada.
Cercado por observadores, analisando minhas roupas, expressão carregada de quase trinta anos, a composição pobre com poucas diagonais e algumas repetições justapostas finalizando aquilo que se vê e atenuando as linhas invisíveis.
O que realmente somos?
Quadros sem molduras pendurados pela vida, talvez essa seja uma das respostas. Cheiramos à óleo barato, poluição e produtos químicos que mais parecem vacinas contra o estado atual de vazio ao qual nos submetemos. A torpe existência.
Falando em estilo e composição não chegamos as pinceladas fortes, contínuas e emocionais de um Van Gogh.. Homem, trinta anos, calças e camisa preta, cabelo raspado, olhos mortos, negros e perdidos. Será isso que eles enxergam?
Apenas um parece olhar através de mim. Iluminação não era o melhor fator do lugar. Definitivamente eu não era um barroco, muito menos ela. Seu cabelo esvoaçava pela sua tez amarelada, os olhos vermelhos pareciam lançadores de faca circenses, isso era ela. E isto era eu. Ou quase tinha certeza de que era. Havia uma assinatura no lado esquerdo inferior, era minha.

A razão diz:
-Não seja tolo! Criasse algo. Algo que te corta, e é tão bem construído que nem sequer lembra dos detalhes!

A emoção diz:
-Olhe como ela te olha. O rubro daquele olhar não fora tu que criaste! Há vida própria neles. Uma vida que saiu de ti, e precisas recuperar rapidamente.

Eu digo:
- Como posso dar razão à razão? Ou pior ainda...como lidar com isso emocionalmente? Nada sei, ela não sou eu. Talvez nem o tenha sido alguma vez em algum passado remoto, ou o contrário.

Ela diz:

-Me possua. Sou a parte que esquecera. Sou a lembrança mórbida vilipendiada pelo externo. Precisa de mim.

Algo dentro de mim diz:
-Enlouqueci.

Ela sorri com ar de desprezo. Seu escárnio me atravessa.
Não há quadros, sem mais molduras. Só há nos dois , nus. Não de roupas, mas de almas. Vestindo apenas olhares com matiz avermelhada, sangrando internamente. Uma hemorragia interna de pensamentos desordenados.
O ambiente colore-se de negro, rapidamente o soturno invade. Algo entre Giotto e Caravaggio. Entre os umbrais ela caminha em minha direção. Os olhos com aquela pigmentação vermelho-cinzenta. A pele amarelada com nuâncias de cinza espectral.
-Não há porque temer. – Ela diz segurando os cabelos negros.
-Não temo o que criei. – Debocho.
-Será que criou?
-Não tenho certeza.
-Me beije – ela diz.

Vejo ela mover-se pela sala. Deslizando sobre o assoalho, sua forma de sombra. Não sinto absolutamente nada, ela acende a luz. Não há mais outros quadros, molduras. Só há um, e nele estou. Ela sorri  escarnecendo, fecha a porta.
Estático eu fico preso à parede.
-Então quem criou quem?

(escuridão.)


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Compêndio do conhecimento para acéfalos - Parte 1

Então você chega em casa e dá um sorrisinho escarnecendo o mundo. Logo ao abrir a porta você caminha bem devagar sobre o assoalho feito com alguma madeira nobre. Caminha como se fosse um dinossauro, as patas batendo bem forte no chão tudo estremece. Entre a porta e a sala são apenas alguns longos passos, seu sorriso e satisfação por mais um dia no seu nobre lar. E lá está você! Cheio de si, cagando para tudo e todos, com suas calças caras e sua camisa que custaram bem mais caro que o guarda-roupa inteiro daqueles que conhece bem. Senta-se ao sofá, um sofá caro e confortável. Puro luxo! E ali sua bunda fica hermeticamente confortável, o fruto do conhecimento de físicos, engenheiros e etecetera. Olha as horas no seu ultra-caro relógio de ouro que funciona com corda ou pilhas, às vezes ambos. São dez da noite e ali é o fruto do seu nobre trabalho:
-Ganhar dinheiro fácil.
Ao girar seu pulso, você alcança facilmente o controle-remoto da sua tevê de plasma, vê as notícias em algum canal de lingua estrangeira, põe as mãos no queixo e presta atenção em tudo o que o homenzinho engravatado está dizendo "Nasdaq aumentou dois pontos." "Wallstreet está em polvorosa."  "Steve Jobs abre mais espaço para sua fantástica Apple". O fascínio toma conta. Você almeja estar lá, nas telas esbanjando simpatia e sorrisos forçados. Quer estar entre os figurões do mercado. Você é simplesmente o cara.
E então percebe que tem um livro no chão. Encara-o e não sabe o porquê dele estar ali te encarando. Não é nenhum "Arte da guerra" "A vida de Steve Jobs" ou qualquer livrinho sobre como ficar rico, ou como encher o rabo de dinheiro vendendo porcarias inúteis que de repente tornam-se essênciais à humanidade. É um livro e ele está ali. Suas mãos o pegam, tocam  e sentem o cheiro do papel. Você pensa "Nossa, que troço asqueroso.". E o joga no lixo. Afinal de contas, você é o supremo. O alfa-dog. Você é foda.
Ai eu me pergunto...
Será?

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Correr ou lutar? - Nenhum.

É bem isso.
Nenhum.
Estranho? Simples, quantas vezes já lutasse contra algo que não há possibilidade de vitória e quantas vezes já corresse de confrontos inevitáveis?
A resposta é simples:
-Nenhum, além disso é inútil. Perder energia...
Face a face com tais possibilidades, sobra o tédio. Aquela sensação de Déja vu inesgotável. E tem horas que parecem que tenho um saquinho cheios de pocket déja vu.
Quando nada mais surpreende a gente, sobra a surpresa por coisas que normalmente não nos surpreenderiam. Logo, o efeito seria extremamente antagônico que o inicial. Algo tipo...psicologia reversa para newbies.
Outro assunto esbarra o tédio.
Se ele é indestrutível qual é o problema?
-NENHUM!
O mundo não é lá tão colorido assim para que todas as coisas sejam tão vermelhinhas ou rosáceas(é da flor mesmo). Não gosto da visão Doriana of life. Sentar à mesa com o sorriso borrachudo, a boca cheia de pão, cabelos loiros ao vento e aquela cara de retardado nojento olhando para os "familiares" com carinha de cãozinho feliz. Sinceramente eu odeio Margarina e odeio as propagandas de Margarina (embora não assista tv há mais de 4 anos, não gostava das propagandas mesmo).
E que artefato inútil essa tal televisão.
Sobra outra probabilidade:
-Famílias imperfeitas - Não recordo de outras propagandas, não vejo tv lembram?
Igual, não faz sentido nada nesse post, e o que na nossa vida faz sentido?
Ser tragado pela alegria ou pela tristeza?
Margarina ou Manteiga?
Correr ou lutar?
Nenhum.
Sobra então a noite. E ela é toda minha.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A opção pela "dor".


A noite parece me engolir. Tudo vai escorregando lentamente pela ponta dos meus dedos. Sofrimento é uma definição a qual nos apegamos para explicar o que não é gozo. O copo de vinho tragado pelas sombras externas, completam-se na umbra interna.
Pele pálida que enegrece ao sentir o que não (já)mais sente.

Mãos que batem alucinadamente nas teclas anseando desesperadamente por coisa alguma. A luz externa mescla-se com esse desespero, aglutinando-se em forma de loucura. Ah, loucura breve que não me tira todos os sentidos. E tem horas que gostaria de fechar meus olhos e acordar possuído por essa sensação e quem sabe, nunca mais voltar.
Houve um tempo que caminhava e acreditava que era diferente.
Mas já sabemos que essa não é a mais a verdade. Sabemos que tudo é visto de cima e nunca por dentro. Que não se lê pensamentos e que o véu sempre é descoberto mostrando-nos o que não se quer e nem se deve ver.
Como somos tolos achando que as coisas são passageiras ou eternas. Infelizmente elas coexistem em cada esquina, cada banco de café, cada tijolinho da rua. Era uma janela que jorrava esperança e agora nem janela há. É uma porta de baú onde me enclausurei pelo lado de dentro e joguei a chave fora.

"Se quisesse um pouco de sinceridade buscava os russos pré-revolução" - Charles Bukowski.

Dá pra tirar muitas metáforas dessa frase, que tem um sentido linear e óbvio. Mas sempre distorcemos o que lemos ou escutamos trazendo para uma reconfiguração de acordo com o que passamos ou vamos passar. Nesse exato momento me sinto nu. Não de corpo, mas de alma. Vejo meus sentires e minhas ânsias de uma maneira que nunca vi. Nosso maior medo é deixar transparecer as coisas, não?
Medo de ser sincero, medo de ser honesto.
É esse e outros medos que nos deixam fraco, nos torna aquém de pessoas. Meros esboços desleixados. Arturo, Arturo Bandini, cujo nome ecoou em minha cabeça agora.
Esse pó, essa dor. Essa busca pela aceitação... "O cachorrinho sorriu".
Talvez o pó saiba mais que quaisquer um de nós. Só ele foi testemunha, só ele sabe o que viu. As lágrimas que vivenciou, os sorrisos falsos. O escárnio!
Mas... o "cachorrinho sorriu",
O filho que abandonou a Mãe, largou tudo! E foi tentar em Bunker Hill a sorte.
Sorte?


A chuva caí la fora...
Ela é tão forte que me desmembra. E pela primeira vez em alguns anos sinto que nos tornamos um. O mesmo compasso...
São tantos pingos os vejo em vermelho, preto e cinza. Essas são as cores que mais vejo durante a minha vida. Algumas pessoas são vermelhas mas a grande maioria é cinza.

"(...)como odeio você, sua suja. Mas é mais limpa que eu, porque não tem nenhuma mente para vender, apenas aquela pobre carne.(...)" Pergunte ao pó - trecho.

Essa parte ainda me atormenta, penso muito sobre isso. Por que será que pessoas vendem-se por tão pouco, não só carne (que aliás é o menor dos males) mas sim o pensamento. De construir uma imagem inatingível e depois...simplesmente desmoronar-se entre si e os outros, sobretudo a si mesmo.

Pergunte ao pó, certamente ele saberá mais que eu. Pois ele sabe onde estive. E em breve me juntarei a ele.

domingo, 11 de outubro de 2009

No consultório 2

Era um novo dia em minha vida, fazia alguns dias que os remédios já não aplacavam mais minha existência fragilizada pelo convívio social.
-Desespero - Eu dizia, mas não cogitava que coisas como um bocado de remédios seriam tão importantes assim. A noite parecia uma camarada fiel, nunca me desapontara nesses anos de parceria. Éramos dois insones que só conseguiam fechar os olhos quando o sol raiava no horizonte e mesmo assim eu continuava dizendo:
-Desespero!
Sabia que a situação atual era temporária, que não ficaria muito tempo por aqui sem ter que vender minha alma para a doutora. A essa altura da minha vida, nomes eram apenas designações sofisticadas. Algo tipo, milho verde ou milho amarelo, embora na minha humilde visão os dois fossem exatamente a mesma porcaria.
Tudo transcorreu perfeitamente distorcido, e o tempo era um mero híato entre o antes e o agora. Antes eu ficava em casa dopado, agora sento à sala de espera, esperando para ficar dopado.
Tempos modernos, eu não estou sozinho aqui. Tantos tipos de pessoa precisando de outras coisas, não uma consulta com uma farsante, que veste a carapuça da medicina para simplesmente oferecer remédios onde sequer há alguma mazela.
A lucidez me deixa em pane. E até os lírios da sala me encaram e em uma só voz falam o que já estou cansado de encarar.
-Desespero!
Eu tento não olhar para os lados, uma força que brota de todos os lugares e não chega em lugar nenhum. Ali estão eles esperando. Ah, quem espera mudança aqui? Quem espera que algum transtorno que nos torna único seja erradicado sem sequer deixar quaisquer vestígios!
Poderia repetir aqui um milhão de vezes:
-Eu não tenho problemas, apenas me dê uma porrada de remédios.
Mas sabemos que não é assim que funciona, algumas pessoas só funcionam com o teatrinho armado. Te analisam dos pés à cabeça procurando algum ponto em comum, ou algo do tipo conjunto intersecção. Nunca encontram nada, apenas o que já sabemos:
-Desespero.
Lembro uma vez, era bem criança, vagava pela biblioteca do meu colégio. Era uma tarde daquelas que tudo parecia dar errado, o sol brilhava fulgurando pequenas salamandras pelo céu.
O chão emanava ondas de calor que te faziam sentir em um grande micro-ondas, e tu suava feito um porco. Aquelas sensações me deixavam tonto ora porque eu não gostava do calor intenso, ora eram as outras crianças que me perguntavam coisas as quais não sabia a resposta, muito menos cogitava as encontrar. Eram tempos difícieis... fome, calor e a situação em si me deixavam transtornado. Naquela época eu achava que se conseguisse manter minha mente ocupada e se conseguisse ler todos os livros, me tornaria alguém que poderia ajudar a minha família e sobretudo principalmente ajudar a mim mesmo. Saindo daquela condição de miséria humana, social e intelectual. A família é algo sempre complicado e parece que o amor hoje em dia é demonstrado apenas pelo dinheiro ou alguma espécie de status social ou intelectual. Não sei aquilo modificou o que eu me tornei, nem sempre as dificuldades engrandecem a alma e na mesma proporção as facilidades. Fato que tudo tem um estopim, e o que importa?
Estou aqui às vesperas de uma nova consulta.
A porta lentamente vai se abrindo.
Digo mais uma vez:
-Desespero.




(pra quem não leu, ou esqueceu, aqui vai o link:)

http://leiturasdesenhadas.blogspot.com/2009/08/no-consultorio.html

sábado, 10 de outubro de 2009

Human Error

J.B Greuze - Espelho quebrado (um dos meus favoritos dele)
A máxima das máximas do lugar comum:
"Errar é humano."

Pois bem, o cara que proferiu essa frase pela primeira vez era muito esperto. Acredito eu que ele a usou para desculpar-se de algum erro que fez afinal...todos erramos, certo?
Continuando, se todos erramos partimos para a questão:
Por que erramos?
Não acho que exista tal resposta, até porque talvez eu seja humano também ou também erre. Mas só o desfecho conta? Então, colocamos fora um livro fora porque o final não nos agradou?
Tantas metáforas para explicar o que não tem explicação.
Ultimamente tenho visto coisas que não quero ver:
Pessoas, lugares, situações, sentimentos e blabla. De certa forma a maioria dos problemas vem de um lugar externo pois dialogam intrinsecamente com o interno. Um erro parece o motor para vários, e uma desculpa uma permissão para tantos outros.
Todavia, seria julgar um livro pela capa ou um sabor pela aparência. É nessas horas que penso que deveria ponderar mais, ou simplesmente não dar a mínima.
No fundo é mais satisfeito aquela pessoa que é enganada e sabe que está sendo enganada do que aquele que engana os outros e a sí mesmo.
Veja bem, não é demérito nenhum ser enganado. Pelo contrário, uma das poucas coisas que mantém alguém humano não é errar, mas sim confiar.
E em erros e acertos o que resta?
Absolutamente nada!
No auge dos meus vinte e nove anos, a única coisa que vi entre os tais humanos:
-Mentiras, hipocrisias, enganações etecetera.
Não posso me excluir dessa situação, não posso negar que já bebi desse vinho. O que vale para os outros vale para mim também.
Os dias e horas passam como navalhas sob minha carne e o tempo so dilacera o que há por dentro, acho que quanto mais tempo passa mais os ossos, carne e músculos sofrem uma mutação provocada pelo olho da medusa social nos enrijecendo mais e mais.
Em alguns momentos a dura casca parece quebrar, mas quando a "chuva" está para chegar sempre existe algo que a bloqueia então o externo embebe-se na claridade escura e o interno "diluveia-se" por completo.
Sobra aquela parte... a parte mais escura. E quando fala-se dela, entoam canções citam nomes que ela não pertence. Atribuem nomenclaturas e a forram de maniqueísmo. Quando na verdade é só o "lado escuro da lua".
Vejo minha vida em um espelho e ele está quebrado.

Chuva Vermelha

Tem coisas que deveriam ficar fechadas. Portas que nunca deveriam ser abertas, e assim é o que somos.
Portas. Janelas. Buracos.
É aquela hora que se observa o que não existe, mas de certa forma existe, formando nuvens negras à tua volta. E as nuvens relampeiam, chovem e gritam estrondosamente. A tempestade formada no vácuo.
No olho do furacão formam-se rostos, corpos e pesadelos que não deveriam estar naquele lugar, mas estão. Te encaram com olhos vermelhos e o máximo que consegue sentir é um esboço de uma emoção. E aquela água toda, aquele vento te encobrem por completo.
Ah, caímos tão lentamente mas sentimos o impacto multiplicado por mil. A velocidade é uma inconstância da alma. Em dias que tempo parace apenas uma musiquinha em uma caixa de som antiquíssima feita de cedro.
A música é só um adendo quase que imperceptível, já que os trovões alardeam o nada. Viver parece isso, uma chuva. E não chove para sempre...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Vida




A VIDA


É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo ou o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo "Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!...

Florbela Espanca

Comentar soa desnecessário às vezes.




domingo, 4 de outubro de 2009

Preconceito "intelectual"

Uma das coisas que mais me revoltam é a quantidade de universitários e bacharéis/licenciados/pedagogos idiotas que existem na face terra.
Vamos aos fatos:

1- A maioria dos retardados que graduam-se nas universidades é justamente por não ter nada melhor para se fazer, e parece que suicídio infelizmente não foi opção.

2- 99% defendem seus argumentos calcados em:
a) Meu diploma de graduação.
b) Meu diploma de mestrado.
c) Meu rico conhecimento erudito

O dia que inteligência for sinônimo de erudição/conhecimento enfio um taco de beisebol no meu rabo e viro trapezista.

3- O "professor" e o "universitário" em geral são medíocres. Tanto que ostentam aquele ar de superioridade sou-foda-wannabe. E geralmente não passam de uns boçais carentes de afeto/dinheiro/inteligência(Nota: dinheiro para coisas fúteis, alias...MAIS). Dotados de uma frívola inveja cancerosa acham que são os detentores do conhecimento arcano. O mago-professor ou o artifície-universitário.
Geralmente esse tipo é identificado pelas humilhações aos alunos, pessoas em geral. E pasmem, só bancam de esperto com pessoas simples ou humildes. Fato que presencio todos os dias. Ora em blogs, ora na vida real e etecetera.

4- Tem coisas mais importantes no mundo que ser o mais inteligente/descolado/fodão. Quer ver? Dá uma olhada na tua rua, no teu bairro, na tua cidade e na merda de país que moramos. Onde ter um diploma universitário é uma mera desculpa para punhetear a vida dos outros pagando de fodão, quanda na grande maioria são uns merdas puxa-sacos que lambem até o cu dos seus queridos orientadores para conseguir um mestrado, doutorado. Ah e não porque são inteligentes e sim uma escória de imbecis que vivem circundados de outros acéfalos que decoraram um ou outro livrinho ae, pagando de Sartre, Benjamim, Aristoteles, ou qualquer outro pensador por aí. Vejam por si mesmos, não passam de uns cagões covardes que seu único prazer é ler ulisses para gritar pros amiguinhos (ninguém lê ulisses e fica quieto, ou geralmente é o Aleph, facinho de identificar um cult-universitário-wannabe).

Pois bem, nessas andanças por aí presenciei um dos fatos mais medonhos que já tive o desprivilégio de participar. Re-constituindo. (e sem nomes).

_Rafa, eu não tenho o hábito de ler. Podes me indicar uma boa leitura pro fim de semana?
_Olha, claro que sim. O ultimo livro que li, foi o monstros invisíveis. Tem uma linguagem fácil e é bem divertido, devido sua linguagem quase cinematográfica.

Eis que um pseudo-estudante de filosofia intervém. (No meu ver uma raça que não precisava existir são estudantes de filosofia, sorry Renato.)

_Ah, ela nunca leu. Tu tens que ler esse aqui (mostra um best-seller).
Vira as costas e ainda completa.
_Esse livro aí, tem uma linguagem complexa.

Nesse momento o sangue verve, a raiva e a visão tornam-se aquilo: vermelho em uníssono.
_Peraí! Tu ja leu algum destes livros?
_Não.
_Então faça o favor de tomar no olho do teu cu, não fala do que não sabe.



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Acordar durante a madrugada dá nisso.

Termino o post com uma frase do J.P.

"O homem é uma paixão inútil" - Sartre.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Rompante noturno


"(..)A traição fez o que sabe fazer melhor: bem aço, nem veneno, nem intrigas internas,

nem levantes estrangeiros, nada mais pode atingi-lo." Macbeth, terceiro ato, cena II.




É a voz que escuto. Algumas vezes fico atordoado.
Rervebera por dentro, corrói-me as entranhas.

Minha única cria, meu legado.

Ora sou alegria.

Ora amaldiçoado.

Verdade é o que sou.

Raiva o que se tornou.

Arma dos que nada possuem.

E nela os mais ricos.

Lâmina afiada.

Inquebravel.

Intolerável.

Beleza bruta que não se maquia.

Seja o que for. A qualquer custo.

Não me perco no caminho.

Mesmo que cego ou surdo.

Pois é só o que vejo e escuto.

Espada e escudo.

Aos inimigos a morte.

Para mim tudo!

domingo, 27 de setembro de 2009

It's a sin.



Condenados! Nascemos e nos condicionamos a resignação enquanto seres humanos/sociais. Será que é fácil condenar mais os outros do que a sí próprio? Pois há quem se preocupe com estas convenções. Algumas coisas são ampliphicadas para que no geral criem-se mais categorias excludentes, quando na verdade há três coisas: Confiança, Lealdade e Prazer. E nesses três quesitos se expandem em uma gama de coisas inúteis. E geralmente as pessoas te olham com uma cara quando fazemos algo que é só nosso, e que apenas nós obtemos prazer não é?

Father, forgive me, I tried not to do it
Turned over a new leaf, then tore right through it
Whatever you taught me, I didn't believe it
Father, you fought me, 'cause I didn't care
And I still don't understand

So I look back upon my life
Forever with a sense of shame
I've always been the one to blame
For everything I long to do
No matter when or where or who
Has one thing in common, too

It's a, it's a, it's a, it's a sin
It's a sin
Everything I've ever done
Everything I ever do
Every place I've ever been
Everywhere I'm going to - it's a sin
Trecho: It's a sin - Petshop boys

As coisas que fazemos, são em muitas "erradas" para que os outros condenem, julguem e na na maioria das vezes sintam vontade de fazer e não o fazem a não ser no plano das idéias (que é a mesma coisa, como diz Goethe: "Não há diferença em crimes cometidos pela mente")
Será tão errado andar do jeito que se quer e quando se quer? E das coisas que gostamos todos condenam mas fazem escondidos e se julgamento interno? Ou o julgamento externo é mais importante?

"(...)Que se enganem os outros com nossa aparência mais serena. Aquilo que sabe o coração falso, a cara falsa deve esconder." - Macbeth Ato I cena VII.

E vamos todos dançar a dança do condenar sem olhar para o umbigo? Andaremos descalço fingindo caminhar sobre carvão quando o chão é de algodão?