Entre a vida e a morte há um intenso hiato de acontecimentos, às vezes não. A vida em si é o motor e chave para a morte, que por sua vez não vive sem a vida.
Confuso?
Não creio que a teoria seja tão confusa quanto o processo empiríco, nesse caso tão... comum.
Ultimamente tenho convivido bastante com a caveira da foice, algumas perdas signitivas, outras nem tanto. E na maioria das vezes nenhuma. Contudo, eu acredito que a morte na maioria dos casos seja uma ponte para algo melhor. Na pior das hipóteses um alívio para tanta dor, e que muitas vezes torna-se mais díficil de suportar que qualquer outra mazela significativa à um indivíduo.
Não consigo ficar triste com a morte de outrém, especialmente quando nesses casos a pessoa finalmente dormiu em paz pela primeira vez em sua vida. Existem tragédias, todos os dias alguém tem sua vida ceifada no auge de sua jovialidade, podendo implementar alguma mudançao neste mundo cão. Mas existem aqueles que já moribundos apenas aguardavam sofrendo sua vaga na barca. Existem coisas na vida que podem ser repetidas, Morte e vida só acontecem uma vez.
Você nasce e morre.
Mas poucos, pouquíssimos, morrem para renascer.
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Tabula Rasa
"(...) A menor molécula dentro de você já foi pensada por alguns milhões de pessoas antes de você. Qualquer coisa que você possa fazer é entediante, antiga e perfeitamente lega. Você esta segura porque está presa dentro de sua cultura. Qualquer coisa que você possa conceber é boa, porque pode ser concebida por você. É impossível imaginar um meio de escapar disso. Não há saida.
- O mundo é seu berço e a sua armadilha - ela conclui(...)" - Monstros Invisíveis
- O mundo é seu berço e a sua armadilha - ela conclui(...)" - Monstros Invisíveis
A janela bate. O som reproduzido pelo filete de luz projetado de trás dos corvos é o silêncio. A mesa de desenho mistura-se com a luz e a sombra almagamando-se com corpo, papel em branco e tinta negra.
Talvez você se pergunte o porquê depois de duas horas encarando uma folha que ainda está em branco. Suas mãos dirigem-se ao café, com um movimento suave quase que pendular leva a xícara à boca. O gosto é o não-gosto. A luz é a não-luz. E você é não-você. E a folha segue em branco.
A noite chega e a lua fulgura à sua janela, os corvos não mais estão lá. E você sequer esteve, a folha imutável torna-se seu maior inimigo. A criação é um processo maldito, uma nova ótica... não passam de conjecturas falhas e uma "imitação de vida". Se qualquer coisa que você faça, se nada de você é você e a folha segue em branco é porque o hiatus ainda segue hiatus.
A maior parte do tempo tudo parece um circo. E aqui está você, na sala dos espelhos perdido. Aquém do espelho, no mundo real. A rainha de copas segue do outro lado, a lebre. Do lado de cá (o qual estamos) existem os pormenores e os detalhes sórdidos. A tabula rasa, você refletido na folha.
E nesse momento até uma mancha de café cria inúmeros mundos.
Todos somos mundos.
Alguns estão arruinados, engolidos por sí mesmos.
Nada do que faça mudará quaisquer detalhe, inércia baby.
Você sairá.
A folha seguira ad aeternum rasa.
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domingo, 18 de outubro de 2009
Impressões Dionísicas.
Sol fulgurando raios vermelhos!
Distância que sinto do EU.
Meu rosto partindo em espelhos.
Perdendo aqilo que fora meu.
Vinho que estanca meu sangrar!
Tarde maldita que segue lá fora.
Dor que remonta meu olhar.
Suma luz bastarda! Vá embora!
É dor, mesmo que invisível.
Deita em teu corpo.
É ódio mesmo que destrutível.
Toma em meu copo.
Taças não feitas de crânios.
Lábios feitos de pesadelos.
Vinho.
Mesmo que por inteiro.
Distância que sinto do EU.
Meu rosto partindo em espelhos.
Perdendo aqilo que fora meu.
Vinho que estanca meu sangrar!
Tarde maldita que segue lá fora.
Dor que remonta meu olhar.
Suma luz bastarda! Vá embora!
É dor, mesmo que invisível.
Deita em teu corpo.
É ódio mesmo que destrutível.
Toma em meu copo.
Taças não feitas de crânios.
Lábios feitos de pesadelos.
Vinho.
Mesmo que por inteiro.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
A opção pela "dor".

A noite parece me engolir. Tudo vai escorregando lentamente pela ponta dos meus dedos. Sofrimento é uma definição a qual nos apegamos para explicar o que não é gozo. O copo de vinho tragado pelas sombras externas, completam-se na umbra interna.
Pele pálida que enegrece ao sentir o que não (já)mais sente.
Mãos que batem alucinadamente nas teclas anseando desesperadamente por coisa alguma. A luz externa mescla-se com esse desespero, aglutinando-se em forma de loucura. Ah, loucura breve que não me tira todos os sentidos. E tem horas que gostaria de fechar meus olhos e acordar possuído por essa sensação e quem sabe, nunca mais voltar.
Houve um tempo que caminhava e acreditava que era diferente.
Mas já sabemos que essa não é a mais a verdade. Sabemos que tudo é visto de cima e nunca por dentro. Que não se lê pensamentos e que o véu sempre é descoberto mostrando-nos o que não se quer e nem se deve ver.
Como somos tolos achando que as coisas são passageiras ou eternas. Infelizmente elas coexistem em cada esquina, cada banco de café, cada tijolinho da rua. Era uma janela que jorrava esperança e agora nem janela há. É uma porta de baú onde me enclausurei pelo lado de dentro e joguei a chave fora.
"Se quisesse um pouco de sinceridade buscava os russos pré-revolução" - Charles Bukowski.
Dá pra tirar muitas metáforas dessa frase, que tem um sentido linear e óbvio. Mas sempre distorcemos o que lemos ou escutamos trazendo para uma reconfiguração de acordo com o que passamos ou vamos passar. Nesse exato momento me sinto nu. Não de corpo, mas de alma. Vejo meus sentires e minhas ânsias de uma maneira que nunca vi. Nosso maior medo é deixar transparecer as coisas, não?
Medo de ser sincero, medo de ser honesto.
É esse e outros medos que nos deixam fraco, nos torna aquém de pessoas. Meros esboços desleixados. Arturo, Arturo Bandini, cujo nome ecoou em minha cabeça agora.
Esse pó, essa dor. Essa busca pela aceitação... "O cachorrinho sorriu".
Talvez o pó saiba mais que quaisquer um de nós. Só ele foi testemunha, só ele sabe o que viu. As lágrimas que vivenciou, os sorrisos falsos. O escárnio!
Mas... o "cachorrinho sorriu",
O filho que abandonou a Mãe, largou tudo! E foi tentar em Bunker Hill a sorte.
Sorte?

A chuva caí la fora...
Ela é tão forte que me desmembra. E pela primeira vez em alguns anos sinto que nos tornamos um. O mesmo compasso...
São tantos pingos os vejo em vermelho, preto e cinza. Essas são as cores que mais vejo durante a minha vida. Algumas pessoas são vermelhas mas a grande maioria é cinza.
"(...)como odeio você, sua suja. Mas é mais limpa que eu, porque não tem nenhuma mente para vender, apenas aquela pobre carne.(...)" Pergunte ao pó - trecho.
Essa parte ainda me atormenta, penso muito sobre isso. Por que será que pessoas vendem-se por tão pouco, não só carne (que aliás é o menor dos males) mas sim o pensamento. De construir uma imagem inatingível e depois...simplesmente desmoronar-se entre si e os outros, sobretudo a si mesmo.
Pergunte ao pó, certamente ele saberá mais que eu. Pois ele sabe onde estive. E em breve me juntarei a ele.
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domingo, 11 de outubro de 2009
No consultório 2
Era um novo dia em minha vida, fazia alguns dias que os remédios já não aplacavam mais minha existência fragilizada pelo convívio social.
-Desespero - Eu dizia, mas não cogitava que coisas como um bocado de remédios seriam tão importantes assim. A noite parecia uma camarada fiel, nunca me desapontara nesses anos de parceria. Éramos dois insones que só conseguiam fechar os olhos quando o sol raiava no horizonte e mesmo assim eu continuava dizendo:
-Desespero!
Sabia que a situação atual era temporária, que não ficaria muito tempo por aqui sem ter que vender minha alma para a doutora. A essa altura da minha vida, nomes eram apenas designações sofisticadas. Algo tipo, milho verde ou milho amarelo, embora na minha humilde visão os dois fossem exatamente a mesma porcaria.
Tudo transcorreu perfeitamente distorcido, e o tempo era um mero híato entre o antes e o agora. Antes eu ficava em casa dopado, agora sento à sala de espera, esperando para ficar dopado.
Tempos modernos, eu não estou sozinho aqui. Tantos tipos de pessoa precisando de outras coisas, não uma consulta com uma farsante, que veste a carapuça da medicina para simplesmente oferecer remédios onde sequer há alguma mazela.
A lucidez me deixa em pane. E até os lírios da sala me encaram e em uma só voz falam o que já estou cansado de encarar.
-Desespero!
Eu tento não olhar para os lados, uma força que brota de todos os lugares e não chega em lugar nenhum. Ali estão eles esperando. Ah, quem espera mudança aqui? Quem espera que algum transtorno que nos torna único seja erradicado sem sequer deixar quaisquer vestígios!
Poderia repetir aqui um milhão de vezes:
-Eu não tenho problemas, apenas me dê uma porrada de remédios.
Mas sabemos que não é assim que funciona, algumas pessoas só funcionam com o teatrinho armado. Te analisam dos pés à cabeça procurando algum ponto em comum, ou algo do tipo conjunto intersecção. Nunca encontram nada, apenas o que já sabemos:
-Desespero.
Lembro uma vez, era bem criança, vagava pela biblioteca do meu colégio. Era uma tarde daquelas que tudo parecia dar errado, o sol brilhava fulgurando pequenas salamandras pelo céu.
O chão emanava ondas de calor que te faziam sentir em um grande micro-ondas, e tu suava feito um porco. Aquelas sensações me deixavam tonto ora porque eu não gostava do calor intenso, ora eram as outras crianças que me perguntavam coisas as quais não sabia a resposta, muito menos cogitava as encontrar. Eram tempos difícieis... fome, calor e a situação em si me deixavam transtornado. Naquela época eu achava que se conseguisse manter minha mente ocupada e se conseguisse ler todos os livros, me tornaria alguém que poderia ajudar a minha família e sobretudo principalmente ajudar a mim mesmo. Saindo daquela condição de miséria humana, social e intelectual. A família é algo sempre complicado e parece que o amor hoje em dia é demonstrado apenas pelo dinheiro ou alguma espécie de status social ou intelectual. Não sei aquilo modificou o que eu me tornei, nem sempre as dificuldades engrandecem a alma e na mesma proporção as facilidades. Fato que tudo tem um estopim, e o que importa?
Estou aqui às vesperas de uma nova consulta.
A porta lentamente vai se abrindo.
Digo mais uma vez:
-Desespero.
(pra quem não leu, ou esqueceu, aqui vai o link:)
http://leiturasdesenhadas.blogspot.com/2009/08/no-consultorio.html
-Desespero - Eu dizia, mas não cogitava que coisas como um bocado de remédios seriam tão importantes assim. A noite parecia uma camarada fiel, nunca me desapontara nesses anos de parceria. Éramos dois insones que só conseguiam fechar os olhos quando o sol raiava no horizonte e mesmo assim eu continuava dizendo:
-Desespero!
Sabia que a situação atual era temporária, que não ficaria muito tempo por aqui sem ter que vender minha alma para a doutora. A essa altura da minha vida, nomes eram apenas designações sofisticadas. Algo tipo, milho verde ou milho amarelo, embora na minha humilde visão os dois fossem exatamente a mesma porcaria.
Tudo transcorreu perfeitamente distorcido, e o tempo era um mero híato entre o antes e o agora. Antes eu ficava em casa dopado, agora sento à sala de espera, esperando para ficar dopado.
Tempos modernos, eu não estou sozinho aqui. Tantos tipos de pessoa precisando de outras coisas, não uma consulta com uma farsante, que veste a carapuça da medicina para simplesmente oferecer remédios onde sequer há alguma mazela.
A lucidez me deixa em pane. E até os lírios da sala me encaram e em uma só voz falam o que já estou cansado de encarar.
-Desespero!
Eu tento não olhar para os lados, uma força que brota de todos os lugares e não chega em lugar nenhum. Ali estão eles esperando. Ah, quem espera mudança aqui? Quem espera que algum transtorno que nos torna único seja erradicado sem sequer deixar quaisquer vestígios!
Poderia repetir aqui um milhão de vezes:
-Eu não tenho problemas, apenas me dê uma porrada de remédios.
Mas sabemos que não é assim que funciona, algumas pessoas só funcionam com o teatrinho armado. Te analisam dos pés à cabeça procurando algum ponto em comum, ou algo do tipo conjunto intersecção. Nunca encontram nada, apenas o que já sabemos:
-Desespero.
Lembro uma vez, era bem criança, vagava pela biblioteca do meu colégio. Era uma tarde daquelas que tudo parecia dar errado, o sol brilhava fulgurando pequenas salamandras pelo céu.
O chão emanava ondas de calor que te faziam sentir em um grande micro-ondas, e tu suava feito um porco. Aquelas sensações me deixavam tonto ora porque eu não gostava do calor intenso, ora eram as outras crianças que me perguntavam coisas as quais não sabia a resposta, muito menos cogitava as encontrar. Eram tempos difícieis... fome, calor e a situação em si me deixavam transtornado. Naquela época eu achava que se conseguisse manter minha mente ocupada e se conseguisse ler todos os livros, me tornaria alguém que poderia ajudar a minha família e sobretudo principalmente ajudar a mim mesmo. Saindo daquela condição de miséria humana, social e intelectual. A família é algo sempre complicado e parece que o amor hoje em dia é demonstrado apenas pelo dinheiro ou alguma espécie de status social ou intelectual. Não sei aquilo modificou o que eu me tornei, nem sempre as dificuldades engrandecem a alma e na mesma proporção as facilidades. Fato que tudo tem um estopim, e o que importa?
Estou aqui às vesperas de uma nova consulta.
A porta lentamente vai se abrindo.
Digo mais uma vez:
-Desespero.
(pra quem não leu, ou esqueceu, aqui vai o link:)
http://leiturasdesenhadas.blogspot.com/2009/08/no-consultorio.html
sábado, 10 de outubro de 2009
Human Error
J.B Greuze - Espelho quebrado (um dos meus favoritos dele)A máxima das máximas do lugar comum:
"Errar é humano."
Pois bem, o cara que proferiu essa frase pela primeira vez era muito esperto. Acredito eu que ele a usou para desculpar-se de algum erro que fez afinal...todos erramos, certo?
Continuando, se todos erramos partimos para a questão:
Por que erramos?
Não acho que exista tal resposta, até porque talvez eu seja humano também ou também erre. Mas só o desfecho conta? Então, colocamos fora um livro fora porque o final não nos agradou?
Tantas metáforas para explicar o que não tem explicação.
Ultimamente tenho visto coisas que não quero ver:
Pessoas, lugares, situações, sentimentos e blabla. De certa forma a maioria dos problemas vem de um lugar externo pois dialogam intrinsecamente com o interno. Um erro parece o motor para vários, e uma desculpa uma permissão para tantos outros.
Todavia, seria julgar um livro pela capa ou um sabor pela aparência. É nessas horas que penso que deveria ponderar mais, ou simplesmente não dar a mínima.
No fundo é mais satisfeito aquela pessoa que é enganada e sabe que está sendo enganada do que aquele que engana os outros e a sí mesmo.
Veja bem, não é demérito nenhum ser enganado. Pelo contrário, uma das poucas coisas que mantém alguém humano não é errar, mas sim confiar.
E em erros e acertos o que resta?
Absolutamente nada!
No auge dos meus vinte e nove anos, a única coisa que vi entre os tais humanos:
-Mentiras, hipocrisias, enganações etecetera.
Não posso me excluir dessa situação, não posso negar que já bebi desse vinho. O que vale para os outros vale para mim também.
Os dias e horas passam como navalhas sob minha carne e o tempo so dilacera o que há por dentro, acho que quanto mais tempo passa mais os ossos, carne e músculos sofrem uma mutação provocada pelo olho da medusa social nos enrijecendo mais e mais.
Em alguns momentos a dura casca parece quebrar, mas quando a "chuva" está para chegar sempre existe algo que a bloqueia então o externo embebe-se na claridade escura e o interno "diluveia-se" por completo.
Sobra aquela parte... a parte mais escura. E quando fala-se dela, entoam canções citam nomes que ela não pertence. Atribuem nomenclaturas e a forram de maniqueísmo. Quando na verdade é só o "lado escuro da lua".
Vejo minha vida em um espelho e ele está quebrado.
"Errar é humano."
Pois bem, o cara que proferiu essa frase pela primeira vez era muito esperto. Acredito eu que ele a usou para desculpar-se de algum erro que fez afinal...todos erramos, certo?
Continuando, se todos erramos partimos para a questão:
Por que erramos?
Não acho que exista tal resposta, até porque talvez eu seja humano também ou também erre. Mas só o desfecho conta? Então, colocamos fora um livro fora porque o final não nos agradou?
Tantas metáforas para explicar o que não tem explicação.
Ultimamente tenho visto coisas que não quero ver:
Pessoas, lugares, situações, sentimentos e blabla. De certa forma a maioria dos problemas vem de um lugar externo pois dialogam intrinsecamente com o interno. Um erro parece o motor para vários, e uma desculpa uma permissão para tantos outros.
Todavia, seria julgar um livro pela capa ou um sabor pela aparência. É nessas horas que penso que deveria ponderar mais, ou simplesmente não dar a mínima.
No fundo é mais satisfeito aquela pessoa que é enganada e sabe que está sendo enganada do que aquele que engana os outros e a sí mesmo.
Veja bem, não é demérito nenhum ser enganado. Pelo contrário, uma das poucas coisas que mantém alguém humano não é errar, mas sim confiar.
E em erros e acertos o que resta?
Absolutamente nada!
No auge dos meus vinte e nove anos, a única coisa que vi entre os tais humanos:
-Mentiras, hipocrisias, enganações etecetera.
Não posso me excluir dessa situação, não posso negar que já bebi desse vinho. O que vale para os outros vale para mim também.
Os dias e horas passam como navalhas sob minha carne e o tempo so dilacera o que há por dentro, acho que quanto mais tempo passa mais os ossos, carne e músculos sofrem uma mutação provocada pelo olho da medusa social nos enrijecendo mais e mais.
Em alguns momentos a dura casca parece quebrar, mas quando a "chuva" está para chegar sempre existe algo que a bloqueia então o externo embebe-se na claridade escura e o interno "diluveia-se" por completo.
Sobra aquela parte... a parte mais escura. E quando fala-se dela, entoam canções citam nomes que ela não pertence. Atribuem nomenclaturas e a forram de maniqueísmo. Quando na verdade é só o "lado escuro da lua".
Vejo minha vida em um espelho e ele está quebrado.
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Chuva Vermelha
Tem coisas que deveriam ficar fechadas. Portas que nunca deveriam ser abertas, e assim é o que somos.
Portas. Janelas. Buracos.
É aquela hora que se observa o que não existe, mas de certa forma existe, formando nuvens negras à tua volta. E as nuvens relampeiam, chovem e gritam estrondosamente. A tempestade formada no vácuo.
No olho do furacão formam-se rostos, corpos e pesadelos que não deveriam estar naquele lugar, mas estão. Te encaram com olhos vermelhos e o máximo que consegue sentir é um esboço de uma emoção. E aquela água toda, aquele vento te encobrem por completo.
Ah, caímos tão lentamente mas sentimos o impacto multiplicado por mil. A velocidade é uma inconstância da alma. Em dias que tempo parace apenas uma musiquinha em uma caixa de som antiquíssima feita de cedro.
A música é só um adendo quase que imperceptível, já que os trovões alardeam o nada. Viver parece isso, uma chuva. E não chove para sempre...
Portas. Janelas. Buracos.
É aquela hora que se observa o que não existe, mas de certa forma existe, formando nuvens negras à tua volta. E as nuvens relampeiam, chovem e gritam estrondosamente. A tempestade formada no vácuo.
No olho do furacão formam-se rostos, corpos e pesadelos que não deveriam estar naquele lugar, mas estão. Te encaram com olhos vermelhos e o máximo que consegue sentir é um esboço de uma emoção. E aquela água toda, aquele vento te encobrem por completo.
Ah, caímos tão lentamente mas sentimos o impacto multiplicado por mil. A velocidade é uma inconstância da alma. Em dias que tempo parace apenas uma musiquinha em uma caixa de som antiquíssima feita de cedro.
A música é só um adendo quase que imperceptível, já que os trovões alardeam o nada. Viver parece isso, uma chuva. E não chove para sempre...
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domingo, 2 de agosto de 2009
No consultório.
Fora uma das piores noites, acordei com um intenso gosto de sangue em minha boca. Estava meio zonzo ainda devido excesso de álcool e antidepressivos. Chutavam a porta do quarto, os pontapés atravessavam minha têmpora como machados afiadissimos fatiando meu crânio. Era meu pai. Homenzinho cujo físico é deveras inferior ao meu, o quê não o impediu de ter me arrastado até o carro.
-Anda logo seu drogado de merda, hoje tu vais ver! - Dizia irritado, não sei bem ainda o porquê.
O caminho havia sido longo, não me recordo de ter pensado nada ou por assim dizer qualquer coisa. Quando recobrei-me estava no elevador. Terceiro andar. Aquele homenzinho me arrastara até a porta e disse:
-Te vira, seu merda.
Arrumei minha velha roupa, aqueles blusões que tem anos de vida. E depois de um tempo fazem já parte do que tu és. Indissociavel assim como alguns pensamentos onde a ausência me acompanhava. Havia uma placa ali - "Dra Cynthia - Psiquiatra". Era onze da manhã. Chovia muito. Foi um daqueles momentos que pareciam uma vida inteira e pairava ali ante a escolha de escolher ou não. Entrar ou ficar ali parado. Queria um gole de vinho, mas na minha mochila só tinha livros e cigarros. Das trevas parecia surgir a tal doutora.
-Bom dia, exactamente na hora Sr. Leabout. - Ela sorria, pessoas efusivas acabam o dia de qualquer um.
-Não há nada de bom nesse dia, e odeio que me chamem assim. - Novidade? Nenhuma, mais um dia daqueles.
-Irá melhorar, como preferir... Renee, sente-se.
Não me sentei na poltrona, era de couro e cinza. Pensava que aquilo era tão artificial e surreal quanto a situação a qual estava passando naquele insólito instante.
-Prefiro ficar em pé - murmurei.
-Tanto faz, vamos começar?
-Começar o quê?
-A consulta, rapaz- É estranhamente incomum alguém na mesma faixa etária te chamar de "rapaz" soava como pejorativo.
-Ah...
Finalmente havia decidido me sentar na porcaria da poltrona cinza, era de couro. Artificial creio eu. Ela já estava sentada, com a mão esquerda segurava uma caneta tinteiro. A caneta era preta e prateada. Ficava escrevendo em um caderno preto da Hell-o-Kitty (sem eufemismos). A pele dela era muito clara, podia-se enxergar algumas veias. Seus cabelos eram castanhos claros, bem cuidados diga-se de passagem. Ela mexia nos óculos que eram meio quadrados e não era vermelho, nem negro. Ela ficava ali escrevendo. E lógico, eu nada tinha a dizer.
-Posso acender um cigarro? Perguntei com a minha cara que já previa o ensurdecedor tédio.
-Não, não pode - Não parava de escrever, ficou ali por mais uns cinco ou seis minutos.
Algumas laudas depois, a doutora segurava com suas mãos pequenas e delicadas, dedos arredondados, nenhum anel. Unhas pintadas de preto, nariz arrebitado. Levantou-se para arrumar os óculos e rompeu a quietude.
-Estás sob medicação?
-Sim
-Quanto tempo?
-Dez dias.
-Te sentes melhor?
-Faz diferença?
-Se sentir melhor?
-Não, o remédio.
Ela já retorcia os lábios, o superior era maior que o inferior. Não usava batom e tinha uma rachadura que era um corte longitudinal em ambos. Ela voltou a escrever.
-Posso ler um pouco? - perguntei.
-Não! - Ela parava de escrever e parecia um pouco instável.
-Por que não?
-Porque está consulta é cara, não vais querer desperdiçar tempo nem dinheiro, né? - Ela sorriu.
-É, quanto custa esta consulta?
-120.
-120??? Existem mulheres que cobram menos e não ficam falando merda ou escrevendo enquanto atendem. - Demorou, mas já tinha cansado da branca de neve freudiana.
Ela fechou o caderno, inspirou todo o ar possível. Já viu por um acaso uma pessoa passar do branco para o vermelho passando pelo roxo?Não teria como explicar, mas foi o que eu vi.
Ela já estava fragilizada, irritada e prestes a dar o que eu queria, a receita.
-Escuta aqui, se tu não te ajudar. Como posso te ajudar? - Suspirou.
-Se eu que me considero mais apto para lidar comigo mesmo, por que deixaria alguém como tu lidar comigo?
-Ok, então vou fazer umas perguntas.
-Seja breve. Peguei um livro na minha mochila, era factotum do velho buk.
-Fuma?
-Sim.
Bebe?
-Sim.
-Usa drogas?
-Depende.
-Como assim, depende?
-Ué, só licitas.
-Vida sexual activa?
-Não.
-Pretende ter uma?
-Pretende praticar comigo? Estás te insinuando? - Ela pediu por isso.
-Chega!- Fechou o caderno com raiva, ela realmente estava puta.
-Vou tentar outra abordagem...
-Mais prática?
-Não! Tu é um daqueles, né?
-Daqueles, o quê?
-Metido a espertinho. Assim vou acabar te afundando.
-Não senhora, relaxa.
Acendi um cigarro, ela acenou mandando eu apagar. Ela já estava abatida... Hoje em dia nós fumantes somos perseguidos, inclusive por péssimos médicos...
Ela fica ali me encarando, analisando cada gesto meu. E se tem algo que eu não suporte é alguém me encarando.
-Como foi seu dia? - Ela perguntou bocejando.
-Tenta de novo.
-Como? - Disse ela indignada.
-Ué, tu és nova nisso não?
-Não, tenho este consultório e atendo já fazem três anos. - Novidade?
-Nunca ouvi falar.
-Quem te tratava antes?
- Dr. Ramão. Sabe quem é?
-Foi meu professor na federal - Ela estava adorando o papo, sabe criar laços com o paciente.
-Por isso tu é assim.
-Assim como, Renné?
-Olha, assim noob.
-O que é um noob.
-Deixa pra lá, me da os remédios de uma vez.
-Ainda não terminei de te avaliar.
Em um gesto quase obsceno ela tirou os óculos.
-Trabalhas?
-Isso importa? Qual teu nome mesmo? -Cynthia eu sabia, egos...
-Doutora Cynthia.
-Pais, ruins. Ahm.
-Como assim?
-Colocaram esse nome em ti.
-Cynthia?
-Não, doutora. - Ela realmente não entendia patavinas do que eu falava.
Então ela largou o caderno em um canto, inspirou mais ar. Deveria ter pulmões gigantescos.
-Deves estar orgulhoso, não? - Ela baixou a cabeça, juro que achei que ela se debulharia em lágrimas. Nota: Que tipo de médico usa saia e botas?
-Sim, estou orgulhoso. E tu?
-Não muito.
-Concordo, dra. Deves ter uns trinta anos, nenhum filho e ainda trabalha de psicóloga.
-Não sou eu o assunto aqui, guri. Acreditem, ela acendeu um cigarro.
-Por que tu podes fumar e eu não? - perguntei indignado.
-Porque eu quero e o escritório é meu.
Voltei a ler, ela não abriu mais a boca. Continuou a escrever no caderninho da Hell-o-Kitty e me deu a maldita receita. Uma hora completou-se juntei minhas coisas, ela esperou eu abrir a porta e disse:
-Só mais uma coisa, não te livrasse de mim.
-Espero ansiosamente por isso - Disse meio que quase sorrindo sem sorrir.
-Mentiroso!
-É. Tens razão.
-No final que vai rir, Reneé?
-A senhora, doutora. Não almejo sorrisos só estou aqui pela merda do remédio.
Fechei a porta e saí, apagaria nas próximas 8 horas. Pelo menos tenho calmantes.
-Anda logo seu drogado de merda, hoje tu vais ver! - Dizia irritado, não sei bem ainda o porquê.
O caminho havia sido longo, não me recordo de ter pensado nada ou por assim dizer qualquer coisa. Quando recobrei-me estava no elevador. Terceiro andar. Aquele homenzinho me arrastara até a porta e disse:
-Te vira, seu merda.
Arrumei minha velha roupa, aqueles blusões que tem anos de vida. E depois de um tempo fazem já parte do que tu és. Indissociavel assim como alguns pensamentos onde a ausência me acompanhava. Havia uma placa ali - "Dra Cynthia - Psiquiatra". Era onze da manhã. Chovia muito. Foi um daqueles momentos que pareciam uma vida inteira e pairava ali ante a escolha de escolher ou não. Entrar ou ficar ali parado. Queria um gole de vinho, mas na minha mochila só tinha livros e cigarros. Das trevas parecia surgir a tal doutora.
-Bom dia, exactamente na hora Sr. Leabout. - Ela sorria, pessoas efusivas acabam o dia de qualquer um.
-Não há nada de bom nesse dia, e odeio que me chamem assim. - Novidade? Nenhuma, mais um dia daqueles.
-Irá melhorar, como preferir... Renee, sente-se.
Não me sentei na poltrona, era de couro e cinza. Pensava que aquilo era tão artificial e surreal quanto a situação a qual estava passando naquele insólito instante.
-Prefiro ficar em pé - murmurei.
-Tanto faz, vamos começar?
-Começar o quê?
-A consulta, rapaz- É estranhamente incomum alguém na mesma faixa etária te chamar de "rapaz" soava como pejorativo.
-Ah...
Finalmente havia decidido me sentar na porcaria da poltrona cinza, era de couro. Artificial creio eu. Ela já estava sentada, com a mão esquerda segurava uma caneta tinteiro. A caneta era preta e prateada. Ficava escrevendo em um caderno preto da Hell-o-Kitty (sem eufemismos). A pele dela era muito clara, podia-se enxergar algumas veias. Seus cabelos eram castanhos claros, bem cuidados diga-se de passagem. Ela mexia nos óculos que eram meio quadrados e não era vermelho, nem negro. Ela ficava ali escrevendo. E lógico, eu nada tinha a dizer.
-Posso acender um cigarro? Perguntei com a minha cara que já previa o ensurdecedor tédio.
-Não, não pode - Não parava de escrever, ficou ali por mais uns cinco ou seis minutos.
Algumas laudas depois, a doutora segurava com suas mãos pequenas e delicadas, dedos arredondados, nenhum anel. Unhas pintadas de preto, nariz arrebitado. Levantou-se para arrumar os óculos e rompeu a quietude.
-Estás sob medicação?
-Sim
-Quanto tempo?
-Dez dias.
-Te sentes melhor?
-Faz diferença?
-Se sentir melhor?
-Não, o remédio.
Ela já retorcia os lábios, o superior era maior que o inferior. Não usava batom e tinha uma rachadura que era um corte longitudinal em ambos. Ela voltou a escrever.
-Posso ler um pouco? - perguntei.
-Não! - Ela parava de escrever e parecia um pouco instável.
-Por que não?
-Porque está consulta é cara, não vais querer desperdiçar tempo nem dinheiro, né? - Ela sorriu.
-É, quanto custa esta consulta?
-120.
-120??? Existem mulheres que cobram menos e não ficam falando merda ou escrevendo enquanto atendem. - Demorou, mas já tinha cansado da branca de neve freudiana.
Ela fechou o caderno, inspirou todo o ar possível. Já viu por um acaso uma pessoa passar do branco para o vermelho passando pelo roxo?Não teria como explicar, mas foi o que eu vi.
Ela já estava fragilizada, irritada e prestes a dar o que eu queria, a receita.
-Escuta aqui, se tu não te ajudar. Como posso te ajudar? - Suspirou.
-Se eu que me considero mais apto para lidar comigo mesmo, por que deixaria alguém como tu lidar comigo?
-Ok, então vou fazer umas perguntas.
-Seja breve. Peguei um livro na minha mochila, era factotum do velho buk.
-Fuma?
-Sim.
Bebe?
-Sim.
-Usa drogas?
-Depende.
-Como assim, depende?
-Ué, só licitas.
-Vida sexual activa?
-Não.
-Pretende ter uma?
-Pretende praticar comigo? Estás te insinuando? - Ela pediu por isso.
-Chega!- Fechou o caderno com raiva, ela realmente estava puta.
-Vou tentar outra abordagem...
-Mais prática?
-Não! Tu é um daqueles, né?
-Daqueles, o quê?
-Metido a espertinho. Assim vou acabar te afundando.
-Não senhora, relaxa.
Acendi um cigarro, ela acenou mandando eu apagar. Ela já estava abatida... Hoje em dia nós fumantes somos perseguidos, inclusive por péssimos médicos...
Ela fica ali me encarando, analisando cada gesto meu. E se tem algo que eu não suporte é alguém me encarando.
-Como foi seu dia? - Ela perguntou bocejando.
-Tenta de novo.
-Como? - Disse ela indignada.
-Ué, tu és nova nisso não?
-Não, tenho este consultório e atendo já fazem três anos. - Novidade?
-Nunca ouvi falar.
-Quem te tratava antes?
- Dr. Ramão. Sabe quem é?
-Foi meu professor na federal - Ela estava adorando o papo, sabe criar laços com o paciente.
-Por isso tu é assim.
-Assim como, Renné?
-Olha, assim noob.
-O que é um noob.
-Deixa pra lá, me da os remédios de uma vez.
-Ainda não terminei de te avaliar.
Em um gesto quase obsceno ela tirou os óculos.
-Trabalhas?
-Isso importa? Qual teu nome mesmo? -Cynthia eu sabia, egos...
-Doutora Cynthia.
-Pais, ruins. Ahm.
-Como assim?
-Colocaram esse nome em ti.
-Cynthia?
-Não, doutora. - Ela realmente não entendia patavinas do que eu falava.
Então ela largou o caderno em um canto, inspirou mais ar. Deveria ter pulmões gigantescos.
-Deves estar orgulhoso, não? - Ela baixou a cabeça, juro que achei que ela se debulharia em lágrimas. Nota: Que tipo de médico usa saia e botas?
-Sim, estou orgulhoso. E tu?
-Não muito.
-Concordo, dra. Deves ter uns trinta anos, nenhum filho e ainda trabalha de psicóloga.
-Não sou eu o assunto aqui, guri. Acreditem, ela acendeu um cigarro.
-Por que tu podes fumar e eu não? - perguntei indignado.
-Porque eu quero e o escritório é meu.
Voltei a ler, ela não abriu mais a boca. Continuou a escrever no caderninho da Hell-o-Kitty e me deu a maldita receita. Uma hora completou-se juntei minhas coisas, ela esperou eu abrir a porta e disse:
-Só mais uma coisa, não te livrasse de mim.
-Espero ansiosamente por isso - Disse meio que quase sorrindo sem sorrir.
-Mentiroso!
-É. Tens razão.
-No final que vai rir, Reneé?
-A senhora, doutora. Não almejo sorrisos só estou aqui pela merda do remédio.
Fechei a porta e saí, apagaria nas próximas 8 horas. Pelo menos tenho calmantes.
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