Carlos,
Eu sei que você nunca me escuta, sei que nunca lê minhas cartas. Essa é uma ultima tentativa, e na verdade não é nenhuma tentativa. Aqui eu fico, nervosa como sempre e extremamente irritada com esta sua conduta nojenta. Ah, você nunca liga, nunca se importa, nunca nada. Sentei agora a pouco nesta cadeira, sei que estava por aqui não faz muito tempo, e acendo um cigarro atrás do outro e como sempre você dizia "fumar mata". Devo dizer que você tem razão, mata! Mata o tempo que passava sentada aqui esperando quem nem sequer saiu e por muitas vezes jamais voltou. Mata, pois seu sangue é sujo, tem um gosto ralo e nenhum cigarro compara-se a esta vida que tenho. Essa miséria a qual devo agradece-lo por ter me proporcionado. Alguns longos anos colocados no fundo de uma lata velha e enferrujada de lixo! E em breve você fara companhia, aos meus cigarros fumados até o filtro, as minhas unhas que não paro de roer e até o papel que outrora escrevia cartas para você. Acabarão todos juntos. Bem enfiados em uma lata velha, carregadas por um lixeiro com a pele suada de tanto juntar sacos que nem sequer podem ser comparados à sua pessoa, pois são bem melhores e servem para algo.
Carlos, essa carta não é tão para você. Ela é para mim. Ela é para quem quiser ler. Estou muito cansada dessa exposição, de ser a "garotinha do papai" como me falava. É, algumas mudanças sutis não podemos reparar, mas as grandes mudanças até uma sombra pode perceber e a minha já tinha me alertado para isso. Há tanto indizível, não é? Aquelas noites que jamais voltarão, aqueles momentos que permacem estagnados em uma banheira cheia de água e gelo. Toda vez que me banho, lembro destes mero detalhes que sempre lhe passaram desapercebidos. Assim como agora, este último. Você jamais imaginaria que eu estaria aqui. Jamais! Me chamava de covarde, de fraca. Zombava da minha fragilidade que para mim era uma qualidade e para você foi um instrumento de impávida vileza. Agora, fumando meu último cigarro, já escuto as sirenes. Escuto, Carlos. Elas gritam e eu estou cagando para elas. Sigo fumando. Afinal é meu último cigarro. E vou finalizando minha última carta para você. Sei que não lerá, sei que nunca leu. E agora que estás morto no sofá com a faca que lhe dei de presente e nem sequer ouvi um "obrigado". Devo dizer que nunca lhe vi tão bonito, ah Carlos essa faca realmente caiu bem em você. Felizmente esta carta não será desperdiçada, afinal você está tão morto quanto me fez sentir antigamente. Obrigado por não existir e me sentir viva com você uma única vez. Agradeço por este momento.
As sirenes berram.
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domingo, 22 de novembro de 2009
domingo, 18 de outubro de 2009
Para Susan com amor
Esta não é uma história de amor, e eu nem sequer conheço uma tal de Susan. Houve uma época que alguém à conheceu. Era um doutor-bioquímico suíço com nome alemão.
Wilhelm é o pai disso que seguro na minha mão esquerda, a droga mais potente de todo o mundo:
-Para Susan com amor.
Irônico não? Susan era a esposa de Wilhelm que tinha um caso com Zoe. Zoe era prostituta e Susan por sua vez era pintora. Talvez você fique entediado com essa parte da história, como lhe falei não há amor aqui, e Susan é só um nome de droga, que está na minha mão esquerda. Parece estranho mas estar aqui me despertou a vontade compartilhar a origem dessa droga, que por muito tempo julguei ser uma lenda urbana. Não me interrompa.
Susan era uma mulher anormal, gostava de Wilhelm. Mas com o tempo a relação dos dois ficara enfadonha, e não era por causa da rotina. O doutor ficou obcecado pela criação de um remédio que salvaria vidas, trabalhava em uma cura para o câncer. Susan se preocupava com uma nova expressão artística, estava obcecada por auto-retratos.
Enquanto o Doutor estudava, Susan pintava, Zoe estava no distrito vermelho e com certeza, ela não buscava absolutamente nada. Três dias atrás estava na esquina de um dos becos sujos da cidade, encontrei com um lacaiozinho o nome dele era Charles.
Estava completamente fumado, seus olhos esbugalhavam-se e as mãos bem retraídas. Parecia um circo, e eu era o palhaço. Ele falou algumas palavras, enquanto babava-se. A única coisa que escutei ele dizer com clareza foi:
-Para Susan com amor.
Eu não acreditei à primeira ouvida. Achava que era uma obsessão antiga, e agora isso era apenas uma linha esquecida no canto do jornal. Ele sorria, e disse novamente.
-Para Susan com amor. – e apontava para a rua.
Questionei sobre onde ele havia escutado esse nome, quem lhe disse. Não adiantou muito, há três dias atrás meus delírios foram comprovados. Existia a droga, e alguém a tinha por aí, era uma questão de tempo.
Com o passar dos anos e a relação esfriando Susan, depois de pintar muitos auto-retratos, contraiu uma grave doença, Wilhelm parou com a pesquisa em câncer e dedicou-se a diagnosticar a esposa. Em vão, passava noites no laboratório, mandando amostras de sangue para todo o mundo e não recebia nenhuma resposta.
Sai do beco e fui até um bar. Minha cabeça estava rodando em gozo. Realmente a tal droga existia. Uma procura de muitos anos finalmente estava para acabar. No bar eu iria encontrar com alguns tipinhos que conheço, informação é sempre fácil de se conseguir quando se tem uns trocados no bolso para pagar uns tragos. A noite começava a feder.
Escrevi em um papel manchado com café:
-Para Susan com amor. – assim não precisaria falar muito.
Wilhelm andava exausto pois não sabia ao certo o que a esposa tinha, mas uma coisa sabia ele iria cura-la. Dobrou o turno de trabalho no laboratório, mal se viam. Susan sabia que viria a morrer em breve e dobrou as horas no atelier. Os anos foram passando, Wilhelm cada vez mais longe da cura, e Susan cada vez mais perto da morte.
Quando entrei no bar vi as mesmas pessoas de sempre: brancos, negros, amarelos, drogados, prostitutas e policias disfarçados. Não entendo porque um policial se disfarça se quem é treinado na rua consegue farejar um agente da lei a kilômetros. A tentativa é livre, o obcecado por uma lenda urbana falando. Bem isso foi há três dias atrás.
Havia um sujeito sentado na copa, seu nome era Martin, mas gostava de se chamado de Estirpador. Sabe esses maníacos homicidas com mania de grandeza? Esse era o Martin, dois metros de altura, musculoso e burro feito uma porta. Se o dobrasse sabia que conseguiria as informações necessárias para encontrar a tal droga.
O doutor tinha envelhecido muito nos últimos anos, Susan definhava no seu leito. Para pintar ele amarrava os pinceis nos dedos para que não os soltasse no chão.
Wilhelm às vésperas de criar a nova droga se sentia sozinho. O corpo gritava por sexo mas não tinha cara nem coragem de ir até a cama, ele foi fraco e resolveu pagar uma prostituta e então ele foi para o distrito vermelho.
Paguei uma dose de uísque ao Martin, ele tinha ficado contente. Me falou dos seus grandes planos, assassinatos, roubos era o terror em pessoa. Nada daquilo me interessava, só queria saber o que você já sabe o que eu queria. E como você pode ver, está na minha mão esquerda, uma bela pílula não? Estávamos muito bêbados, ele disse que falaria onde ouviu falar se eu fosse com ele até o centro da cidade.
-Pelos velhos tempos – Disse ele batendo nas minhas costas.
Obviamente eu acabei indo, nos divertimos isso basta. Me falou que os meninos do cais sabiam, era uma pista. Já era tarde no outro dia iria até lá.
Por volta das três da manha Wilhelm estava na Zona. Se sentia pesado, suas roupas eram grandes. Usava uma capa sobre o terno. Era de couro, material bom. Seus óculos redondos e pequeninos escondiam seu olhar. Ele só queria uma prostituta para deitar aquela noite. E então viu Zoe.
Pela manhã fui para as docas. Lá era um lugar perigoso, até mesmo para mim altamente relacionado com o submundo e acredite, isso não foi uma ironia. Havia sido tranqüilo, me falaram onde arrumar a droga, custou-me um nota. Essa noite teria Para Susan com amor. Zoe correu até o doutor. Ele a pegou nos braços, enlaçando-a. Passou a noite lá, quando saiu era manhã e sol ardia sobre a cidade. Zoe despediu-se. Wilhelm, o adultero ia para a casa com a culpa sobre o corpo, na hora ninguém pensa não é mesmo?
Ai você fica me olhando, eu aqui parado. Com essa coisinha na mão, fica se vangloriando mas o vencedor fica com as batatas não é?
E quem são as batatas?
Quando voltou, o doutor rumou direto ao laboratório. Conta-se que passou três dias sem sair, e finalmente concluiu sua obra-prima. Wilhelm estava feliz, a culpa aliviada. Correu para o quarto e constatou que Susan estava morta há três dias. Tomado por raiva e culpa, tentou se matar, em vão.
Ontem, você sabe... Estava naquela esquina, no lugar marcado, na hora marcada.
Anos de luta, resumidos a um simples e notívago encontro. O nome do sujeito era Arthur. Conversamos, e ele não quis me vender a droga. Então você sabe o que aconteceu. E nada mais tenho para falar.
Ah sim, havia esquecido. O doutor pegou sua criação, eram em torno de doze pílulas e as levou para o distrito. Passou a noite novamente com Zoe, e pela culpa a fez tomar o remédio. Esperto e cretino do jeito que era Wilhelm diluiu a pílula na bebida da mulher.
Os relatos e a certidão de óbito dizem que ela viajou durante três dias e morreu comida pelos seu próprio sistema imunológico, o verdadeiro suicídio. O doutor tomou também, e aconteceu o mesmo. Quando encontraram o corpo do Doutor no bolso havia um bilhete:
-Para Susan com Amor.
E você acha mesmo que vou esperar o julgamento, e morrer na cadeira elétrica?
Wilhelm é o pai disso que seguro na minha mão esquerda, a droga mais potente de todo o mundo:
-Para Susan com amor.
Irônico não? Susan era a esposa de Wilhelm que tinha um caso com Zoe. Zoe era prostituta e Susan por sua vez era pintora. Talvez você fique entediado com essa parte da história, como lhe falei não há amor aqui, e Susan é só um nome de droga, que está na minha mão esquerda. Parece estranho mas estar aqui me despertou a vontade compartilhar a origem dessa droga, que por muito tempo julguei ser uma lenda urbana. Não me interrompa.
Susan era uma mulher anormal, gostava de Wilhelm. Mas com o tempo a relação dos dois ficara enfadonha, e não era por causa da rotina. O doutor ficou obcecado pela criação de um remédio que salvaria vidas, trabalhava em uma cura para o câncer. Susan se preocupava com uma nova expressão artística, estava obcecada por auto-retratos.
Enquanto o Doutor estudava, Susan pintava, Zoe estava no distrito vermelho e com certeza, ela não buscava absolutamente nada. Três dias atrás estava na esquina de um dos becos sujos da cidade, encontrei com um lacaiozinho o nome dele era Charles.
Estava completamente fumado, seus olhos esbugalhavam-se e as mãos bem retraídas. Parecia um circo, e eu era o palhaço. Ele falou algumas palavras, enquanto babava-se. A única coisa que escutei ele dizer com clareza foi:
-Para Susan com amor.
Eu não acreditei à primeira ouvida. Achava que era uma obsessão antiga, e agora isso era apenas uma linha esquecida no canto do jornal. Ele sorria, e disse novamente.
-Para Susan com amor. – e apontava para a rua.
Questionei sobre onde ele havia escutado esse nome, quem lhe disse. Não adiantou muito, há três dias atrás meus delírios foram comprovados. Existia a droga, e alguém a tinha por aí, era uma questão de tempo.
Com o passar dos anos e a relação esfriando Susan, depois de pintar muitos auto-retratos, contraiu uma grave doença, Wilhelm parou com a pesquisa em câncer e dedicou-se a diagnosticar a esposa. Em vão, passava noites no laboratório, mandando amostras de sangue para todo o mundo e não recebia nenhuma resposta.
Sai do beco e fui até um bar. Minha cabeça estava rodando em gozo. Realmente a tal droga existia. Uma procura de muitos anos finalmente estava para acabar. No bar eu iria encontrar com alguns tipinhos que conheço, informação é sempre fácil de se conseguir quando se tem uns trocados no bolso para pagar uns tragos. A noite começava a feder.
Escrevi em um papel manchado com café:
-Para Susan com amor. – assim não precisaria falar muito.
Wilhelm andava exausto pois não sabia ao certo o que a esposa tinha, mas uma coisa sabia ele iria cura-la. Dobrou o turno de trabalho no laboratório, mal se viam. Susan sabia que viria a morrer em breve e dobrou as horas no atelier. Os anos foram passando, Wilhelm cada vez mais longe da cura, e Susan cada vez mais perto da morte.
Quando entrei no bar vi as mesmas pessoas de sempre: brancos, negros, amarelos, drogados, prostitutas e policias disfarçados. Não entendo porque um policial se disfarça se quem é treinado na rua consegue farejar um agente da lei a kilômetros. A tentativa é livre, o obcecado por uma lenda urbana falando. Bem isso foi há três dias atrás.
Havia um sujeito sentado na copa, seu nome era Martin, mas gostava de se chamado de Estirpador. Sabe esses maníacos homicidas com mania de grandeza? Esse era o Martin, dois metros de altura, musculoso e burro feito uma porta. Se o dobrasse sabia que conseguiria as informações necessárias para encontrar a tal droga.
O doutor tinha envelhecido muito nos últimos anos, Susan definhava no seu leito. Para pintar ele amarrava os pinceis nos dedos para que não os soltasse no chão.
Wilhelm às vésperas de criar a nova droga se sentia sozinho. O corpo gritava por sexo mas não tinha cara nem coragem de ir até a cama, ele foi fraco e resolveu pagar uma prostituta e então ele foi para o distrito vermelho.
Paguei uma dose de uísque ao Martin, ele tinha ficado contente. Me falou dos seus grandes planos, assassinatos, roubos era o terror em pessoa. Nada daquilo me interessava, só queria saber o que você já sabe o que eu queria. E como você pode ver, está na minha mão esquerda, uma bela pílula não? Estávamos muito bêbados, ele disse que falaria onde ouviu falar se eu fosse com ele até o centro da cidade.
-Pelos velhos tempos – Disse ele batendo nas minhas costas.
Obviamente eu acabei indo, nos divertimos isso basta. Me falou que os meninos do cais sabiam, era uma pista. Já era tarde no outro dia iria até lá.
Por volta das três da manha Wilhelm estava na Zona. Se sentia pesado, suas roupas eram grandes. Usava uma capa sobre o terno. Era de couro, material bom. Seus óculos redondos e pequeninos escondiam seu olhar. Ele só queria uma prostituta para deitar aquela noite. E então viu Zoe.
Pela manhã fui para as docas. Lá era um lugar perigoso, até mesmo para mim altamente relacionado com o submundo e acredite, isso não foi uma ironia. Havia sido tranqüilo, me falaram onde arrumar a droga, custou-me um nota. Essa noite teria Para Susan com amor. Zoe correu até o doutor. Ele a pegou nos braços, enlaçando-a. Passou a noite lá, quando saiu era manhã e sol ardia sobre a cidade. Zoe despediu-se. Wilhelm, o adultero ia para a casa com a culpa sobre o corpo, na hora ninguém pensa não é mesmo?
Ai você fica me olhando, eu aqui parado. Com essa coisinha na mão, fica se vangloriando mas o vencedor fica com as batatas não é?
E quem são as batatas?
Quando voltou, o doutor rumou direto ao laboratório. Conta-se que passou três dias sem sair, e finalmente concluiu sua obra-prima. Wilhelm estava feliz, a culpa aliviada. Correu para o quarto e constatou que Susan estava morta há três dias. Tomado por raiva e culpa, tentou se matar, em vão.
Ontem, você sabe... Estava naquela esquina, no lugar marcado, na hora marcada.
Anos de luta, resumidos a um simples e notívago encontro. O nome do sujeito era Arthur. Conversamos, e ele não quis me vender a droga. Então você sabe o que aconteceu. E nada mais tenho para falar.
Ah sim, havia esquecido. O doutor pegou sua criação, eram em torno de doze pílulas e as levou para o distrito. Passou a noite novamente com Zoe, e pela culpa a fez tomar o remédio. Esperto e cretino do jeito que era Wilhelm diluiu a pílula na bebida da mulher.
Os relatos e a certidão de óbito dizem que ela viajou durante três dias e morreu comida pelos seu próprio sistema imunológico, o verdadeiro suicídio. O doutor tomou também, e aconteceu o mesmo. Quando encontraram o corpo do Doutor no bolso havia um bilhete:
-Para Susan com Amor.
E você acha mesmo que vou esperar o julgamento, e morrer na cadeira elétrica?
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Drogas,
Exercicío narrativo,
Hipocrisia,
sexo
Desprobalidades
Aquela noite reverbera dentro de mim. Foi a ultima vez que eu a vi, mas de certa forma foi a ultima vez que me vi também. Ah, simplesmente não sei explicar. Eram tempos difíceis eu andava sem dinheiro, e ela sem muita paciência . Estranho que quando ela estava aqui costumava sentar sobre minha cama, com as mãos no cabelo, com aquele ar de intocável. Aquilo era só a casca dura. As mãos desenhavam ondas pelos cabelos negros, o pescoço apontava para um lugar o qual não gostaria de estar. Eu ficava ali parado olhando ela se perder enquanto eu já perdido afogado na visão dos seus cabelos.
Aquilo tomava conta de mim, era como se me enchesse de desespero por saber que aquilo esgotaria cedo ou tarde. Sabia que nunca ia ser para sempre, e sabia também que o dia acaba, e que temos que dormir. Eu sabia! Mas estava cagando para tudo isso. Eu ficava ali, vendo meus sonhos de infância se inflarem e estourarem na minha frente como balões cheios de água. E aquela água toda ia direto na minha cara.
Essa noite sentei na cama, tentei mexer nos meus cabelos. Não era a mesma coisa. Mesmo quando tinha colocado um espelho na minha frente para que de repente emulasse a sua presença aqui. Ah, como sou estranho. Minhas mãos imitavam o ritmo, minha mente fazia o resto. Mas o mais importante, não estava lá: Sua presença.
O tempo corre bem quando estamos nos sentido mal. Algo inexplicável já que deveria ser o contrário. Ela é uma presença fictícia porem mais real do que eu mesmo aqui segurando as pontas dos meus cabelos que nem sequer lembram os dela.
Alias nada em mim a lembra. Nem o espelho, os gestos. Absolutamente nada.
À noite fico olhando pela janela buscando respostas, mas nem sequer existem perguntas. Acendo alguns cigarros, provo de vinhos baratos. Mas como já disse e você bem sabe. Nada é igual. Não passa de realidades alteradas para que satisfaçam alguma lacuna que nunca será preenchida, a não ser pelo que é real. E o real... é distante demais daqui.
Volto para uma noite antes. Estávamos sentados sobre a mesma cama. Ela olhava a janela, eu a olhava. A via como um ser mais importante que eu aquele dia.
-E então, você vai me deixar – Ela disse.
-Não.
-Vai sim. Está na sua cara! – Sorriu.
Acendeu um cigarro enquanto me via com cara de cordeiro atingido por uma flecha. Ria como uma louca. Ao mesmo tempo que tinha certeza que era escárnio, sabia que era um desespero além do normal. Era pânico. Medo de que nada mais desse certo. Ela chorava e eu tentava sentir algo. Apertei minhas sobrancelhas, fiz de tudo mas não consegui chorar por fora. Dentro de mim havia um pânico maior. De que adianta externar lágrimas se por dentro eu me afogava em tristeza. Ela sorria e chorava.
Meu cigarro escorria pelas pontas dos meus dedos, meus olhos já haviam secado enquanto ela vestia-se com suas roupas velhas e seu medo.
Ela saiu. Voltou no outro dia. E eu que nunca mais voltei. Me sinto perdido desde o momento em que a encontrei e não consegui voltar aonde eu estava.
E na janela passo meus dias.
Tento reencontra-la e a mim mesmo.
Aquilo tomava conta de mim, era como se me enchesse de desespero por saber que aquilo esgotaria cedo ou tarde. Sabia que nunca ia ser para sempre, e sabia também que o dia acaba, e que temos que dormir. Eu sabia! Mas estava cagando para tudo isso. Eu ficava ali, vendo meus sonhos de infância se inflarem e estourarem na minha frente como balões cheios de água. E aquela água toda ia direto na minha cara.
Essa noite sentei na cama, tentei mexer nos meus cabelos. Não era a mesma coisa. Mesmo quando tinha colocado um espelho na minha frente para que de repente emulasse a sua presença aqui. Ah, como sou estranho. Minhas mãos imitavam o ritmo, minha mente fazia o resto. Mas o mais importante, não estava lá: Sua presença.
O tempo corre bem quando estamos nos sentido mal. Algo inexplicável já que deveria ser o contrário. Ela é uma presença fictícia porem mais real do que eu mesmo aqui segurando as pontas dos meus cabelos que nem sequer lembram os dela.
Alias nada em mim a lembra. Nem o espelho, os gestos. Absolutamente nada.
À noite fico olhando pela janela buscando respostas, mas nem sequer existem perguntas. Acendo alguns cigarros, provo de vinhos baratos. Mas como já disse e você bem sabe. Nada é igual. Não passa de realidades alteradas para que satisfaçam alguma lacuna que nunca será preenchida, a não ser pelo que é real. E o real... é distante demais daqui.
Volto para uma noite antes. Estávamos sentados sobre a mesma cama. Ela olhava a janela, eu a olhava. A via como um ser mais importante que eu aquele dia.
-E então, você vai me deixar – Ela disse.
-Não.
-Vai sim. Está na sua cara! – Sorriu.
Acendeu um cigarro enquanto me via com cara de cordeiro atingido por uma flecha. Ria como uma louca. Ao mesmo tempo que tinha certeza que era escárnio, sabia que era um desespero além do normal. Era pânico. Medo de que nada mais desse certo. Ela chorava e eu tentava sentir algo. Apertei minhas sobrancelhas, fiz de tudo mas não consegui chorar por fora. Dentro de mim havia um pânico maior. De que adianta externar lágrimas se por dentro eu me afogava em tristeza. Ela sorria e chorava.
Meu cigarro escorria pelas pontas dos meus dedos, meus olhos já haviam secado enquanto ela vestia-se com suas roupas velhas e seu medo.
Ela saiu. Voltou no outro dia. E eu que nunca mais voltei. Me sinto perdido desde o momento em que a encontrei e não consegui voltar aonde eu estava.
E na janela passo meus dias.
Tento reencontra-la e a mim mesmo.
Ex-machina
Os retratos nas paredes te convidam à uma refeição com os mortos. Ao longo do corredor escuro, que tem uns quatro metros e meio, estão todos ali enfileirados. Me observam e estão de uma certa maneira mais vivos do que eu. A maneira como fitam meus olhos e a mim é como se eu fosse o quadro. Estou parado, mas meu rosto desliza sobre meus ombros e minhas pequenas mãos agarram o que sobrou de mim:
-Nada.
Cercado por observadores, analisando minhas roupas, expressão carregada de quase trinta anos, a composição pobre com poucas diagonais e algumas repetições justapostas finalizando aquilo que se vê e atenuando as linhas invisíveis.
O que realmente somos?
Quadros sem molduras pendurados pela vida, talvez essa seja uma das respostas. Cheiramos à óleo barato, poluição e produtos químicos que mais parecem vacinas contra o estado atual de vazio ao qual nos submetemos. A torpe existência.
Falando em estilo e composição não chegamos as pinceladas fortes, contínuas e emocionais de um Van Gogh.. Homem, trinta anos, calças e camisa preta, cabelo raspado, olhos mortos, negros e perdidos. Será isso que eles enxergam?
Apenas um parece olhar através de mim. Iluminação não era o melhor fator do lugar. Definitivamente eu não era um barroco, muito menos ela. Seu cabelo esvoaçava pela sua tez amarelada, os olhos vermelhos pareciam lançadores de faca circenses, isso era ela. E isto era eu. Ou quase tinha certeza de que era. Havia uma assinatura no lado esquerdo inferior, era minha.
A razão diz:
-Não seja tolo! Criasse algo. Algo que te corta, e é tão bem construído que nem sequer lembra dos detalhes!
A emoção diz:
-Olhe como ela te olha. O rubro daquele olhar não fora tu que criaste! Há vida própria neles. Uma vida que saiu de ti, e precisas recuperar rapidamente.
Eu digo:
- Como posso dar razão à razão? Ou pior ainda...como lidar com isso emocionalmente? Nada sei, ela não sou eu. Talvez nem o tenha sido alguma vez em algum passado remoto, ou o contrário.
Ela diz:
-Me possua. Sou a parte que esquecera. Sou a lembrança mórbida vilipendiada pelo externo. Precisa de mim.
Algo dentro de mim diz:
-Enlouqueci.
Ela sorri com ar de desprezo. Seu escárnio me atravessa.
Não há quadros, sem mais molduras. Só há nos dois , nus. Não de roupas, mas de almas. Vestindo apenas olhares com matiz avermelhada, sangrando internamente. Uma hemorragia interna de pensamentos desordenados.
O ambiente colore-se de negro, rapidamente o soturno invade. Algo entre Giotto e Caravaggio. Entre os umbrais ela caminha em minha direção. Os olhos com aquela pigmentação vermelho-cinzenta. A pele amarelada com nuâncias de cinza espectral.
-Não há porque temer. – Ela diz segurando os cabelos negros.
-Não temo o que criei. – Debocho.
-Será que criou?
-Não tenho certeza.
-Me beije – ela diz.
Vejo ela mover-se pela sala. Deslizando sobre o assoalho, sua forma de sombra. Não sinto absolutamente nada, ela acende a luz. Não há mais outros quadros, molduras. Só há um, e nele estou. Ela sorri escarnecendo, fecha a porta.
Estático eu fico preso à parede.
Estático eu fico preso à parede.
-Então quem criou quem?
(escuridão.)
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Artes(?),
Conto,
desespero,
Exercicío narrativo,
Insônia
domingo, 11 de outubro de 2009
No consultório 2
Era um novo dia em minha vida, fazia alguns dias que os remédios já não aplacavam mais minha existência fragilizada pelo convívio social.
-Desespero - Eu dizia, mas não cogitava que coisas como um bocado de remédios seriam tão importantes assim. A noite parecia uma camarada fiel, nunca me desapontara nesses anos de parceria. Éramos dois insones que só conseguiam fechar os olhos quando o sol raiava no horizonte e mesmo assim eu continuava dizendo:
-Desespero!
Sabia que a situação atual era temporária, que não ficaria muito tempo por aqui sem ter que vender minha alma para a doutora. A essa altura da minha vida, nomes eram apenas designações sofisticadas. Algo tipo, milho verde ou milho amarelo, embora na minha humilde visão os dois fossem exatamente a mesma porcaria.
Tudo transcorreu perfeitamente distorcido, e o tempo era um mero híato entre o antes e o agora. Antes eu ficava em casa dopado, agora sento à sala de espera, esperando para ficar dopado.
Tempos modernos, eu não estou sozinho aqui. Tantos tipos de pessoa precisando de outras coisas, não uma consulta com uma farsante, que veste a carapuça da medicina para simplesmente oferecer remédios onde sequer há alguma mazela.
A lucidez me deixa em pane. E até os lírios da sala me encaram e em uma só voz falam o que já estou cansado de encarar.
-Desespero!
Eu tento não olhar para os lados, uma força que brota de todos os lugares e não chega em lugar nenhum. Ali estão eles esperando. Ah, quem espera mudança aqui? Quem espera que algum transtorno que nos torna único seja erradicado sem sequer deixar quaisquer vestígios!
Poderia repetir aqui um milhão de vezes:
-Eu não tenho problemas, apenas me dê uma porrada de remédios.
Mas sabemos que não é assim que funciona, algumas pessoas só funcionam com o teatrinho armado. Te analisam dos pés à cabeça procurando algum ponto em comum, ou algo do tipo conjunto intersecção. Nunca encontram nada, apenas o que já sabemos:
-Desespero.
Lembro uma vez, era bem criança, vagava pela biblioteca do meu colégio. Era uma tarde daquelas que tudo parecia dar errado, o sol brilhava fulgurando pequenas salamandras pelo céu.
O chão emanava ondas de calor que te faziam sentir em um grande micro-ondas, e tu suava feito um porco. Aquelas sensações me deixavam tonto ora porque eu não gostava do calor intenso, ora eram as outras crianças que me perguntavam coisas as quais não sabia a resposta, muito menos cogitava as encontrar. Eram tempos difícieis... fome, calor e a situação em si me deixavam transtornado. Naquela época eu achava que se conseguisse manter minha mente ocupada e se conseguisse ler todos os livros, me tornaria alguém que poderia ajudar a minha família e sobretudo principalmente ajudar a mim mesmo. Saindo daquela condição de miséria humana, social e intelectual. A família é algo sempre complicado e parece que o amor hoje em dia é demonstrado apenas pelo dinheiro ou alguma espécie de status social ou intelectual. Não sei aquilo modificou o que eu me tornei, nem sempre as dificuldades engrandecem a alma e na mesma proporção as facilidades. Fato que tudo tem um estopim, e o que importa?
Estou aqui às vesperas de uma nova consulta.
A porta lentamente vai se abrindo.
Digo mais uma vez:
-Desespero.
(pra quem não leu, ou esqueceu, aqui vai o link:)
http://leiturasdesenhadas.blogspot.com/2009/08/no-consultorio.html
-Desespero - Eu dizia, mas não cogitava que coisas como um bocado de remédios seriam tão importantes assim. A noite parecia uma camarada fiel, nunca me desapontara nesses anos de parceria. Éramos dois insones que só conseguiam fechar os olhos quando o sol raiava no horizonte e mesmo assim eu continuava dizendo:
-Desespero!
Sabia que a situação atual era temporária, que não ficaria muito tempo por aqui sem ter que vender minha alma para a doutora. A essa altura da minha vida, nomes eram apenas designações sofisticadas. Algo tipo, milho verde ou milho amarelo, embora na minha humilde visão os dois fossem exatamente a mesma porcaria.
Tudo transcorreu perfeitamente distorcido, e o tempo era um mero híato entre o antes e o agora. Antes eu ficava em casa dopado, agora sento à sala de espera, esperando para ficar dopado.
Tempos modernos, eu não estou sozinho aqui. Tantos tipos de pessoa precisando de outras coisas, não uma consulta com uma farsante, que veste a carapuça da medicina para simplesmente oferecer remédios onde sequer há alguma mazela.
A lucidez me deixa em pane. E até os lírios da sala me encaram e em uma só voz falam o que já estou cansado de encarar.
-Desespero!
Eu tento não olhar para os lados, uma força que brota de todos os lugares e não chega em lugar nenhum. Ali estão eles esperando. Ah, quem espera mudança aqui? Quem espera que algum transtorno que nos torna único seja erradicado sem sequer deixar quaisquer vestígios!
Poderia repetir aqui um milhão de vezes:
-Eu não tenho problemas, apenas me dê uma porrada de remédios.
Mas sabemos que não é assim que funciona, algumas pessoas só funcionam com o teatrinho armado. Te analisam dos pés à cabeça procurando algum ponto em comum, ou algo do tipo conjunto intersecção. Nunca encontram nada, apenas o que já sabemos:
-Desespero.
Lembro uma vez, era bem criança, vagava pela biblioteca do meu colégio. Era uma tarde daquelas que tudo parecia dar errado, o sol brilhava fulgurando pequenas salamandras pelo céu.
O chão emanava ondas de calor que te faziam sentir em um grande micro-ondas, e tu suava feito um porco. Aquelas sensações me deixavam tonto ora porque eu não gostava do calor intenso, ora eram as outras crianças que me perguntavam coisas as quais não sabia a resposta, muito menos cogitava as encontrar. Eram tempos difícieis... fome, calor e a situação em si me deixavam transtornado. Naquela época eu achava que se conseguisse manter minha mente ocupada e se conseguisse ler todos os livros, me tornaria alguém que poderia ajudar a minha família e sobretudo principalmente ajudar a mim mesmo. Saindo daquela condição de miséria humana, social e intelectual. A família é algo sempre complicado e parece que o amor hoje em dia é demonstrado apenas pelo dinheiro ou alguma espécie de status social ou intelectual. Não sei aquilo modificou o que eu me tornei, nem sempre as dificuldades engrandecem a alma e na mesma proporção as facilidades. Fato que tudo tem um estopim, e o que importa?
Estou aqui às vesperas de uma nova consulta.
A porta lentamente vai se abrindo.
Digo mais uma vez:
-Desespero.
(pra quem não leu, ou esqueceu, aqui vai o link:)
http://leiturasdesenhadas.blogspot.com/2009/08/no-consultorio.html
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Quinta-Feira
Foi numa quinta pela noite. Eu estava parado na frente de uma loja de departamento. Sabe quando nada da certo? O dia tinha sido uma porcaria, fui demitido e minha ex-mulher fugiu com outra mulher. Naquela hora meus pensamentos voavam em diversos lugares, pensava no quão era engraçada a situação. Seria uma noite comum de quinta-feira se não fosse pelo seguinte detalhe, não era quinta-feira. Eu acreditava que era, mas definitivamente não era. No bolso esquerdo haviam cigarros de canela e no direito convencionais. Cigarros de canela eram bons para ficar observando enquanto bebia algo amargo. Já os convencionais para quando tomava café ou algo doce. O movimento nas ruas era parco para uma não-quinta-feira quinta-feira. E eu não sabia que diabos fazia ali aquela hora. Foi quando conheci Clarice. Era uma daquelas moças que não se sabe da onde que saiu, mas quando tu conheces pensa "Por quê não apareceu antes!". Ela tinha as bochecas fofas e olhos vívidos. O perfume parecia uma mistura entre coisas que nem sei o que são. Clarice, não sei o que era e nem sei da onde saiu.
Eramos os únicos dois ali parados em frente a uma estúpida loja de departamentos. Ela parecia nervosa. Eu estava calmo. Existe um momento em que as pessoas idioticamente tentam interagir de todas as formas, mas sempre a maneira estúpida é a que leva ao diálogo. Percebi isso quando uma das minhas carteiras de cigarro caiu. "Nossa, tu fumas cigarro de mulherzinha" foram as palavras dela. Respondi educadamente "É, comprei-os sabendo da tua existência", ela sorriu. Universalmente quando alguém sorri para ti é o início do dialogo. Ela pegou um dos cigarros e colocou-o em sua boca. Reparava em todos detalhes: mãos, boca... tudo. Conversamos sobre tudo o que não se fala em dez minutos, e não chegamos a nenhuma conclusão além do óbvio...Não era quinta-feira.
Havia algo deveras estranho naquilo. Como pode alguém chamado Clarice existir em uma não-quinta-feira? É o que me pergunto até hoje. Perguntei a ela que horas eram, ela sorriu e olhou para o céu. Seu sorriso era triste. Antes de ir, perguntou o que eu fazia, eu lhe disse "Nada, só estou aqui tentando descobrir que dia é hoje.". E ela se foi... Às vezes me pergunto aonde ela anda de noite e todos os dias são segunda-feira. Inclusive quintas...
Eramos os únicos dois ali parados em frente a uma estúpida loja de departamentos. Ela parecia nervosa. Eu estava calmo. Existe um momento em que as pessoas idioticamente tentam interagir de todas as formas, mas sempre a maneira estúpida é a que leva ao diálogo. Percebi isso quando uma das minhas carteiras de cigarro caiu. "Nossa, tu fumas cigarro de mulherzinha" foram as palavras dela. Respondi educadamente "É, comprei-os sabendo da tua existência", ela sorriu. Universalmente quando alguém sorri para ti é o início do dialogo. Ela pegou um dos cigarros e colocou-o em sua boca. Reparava em todos detalhes: mãos, boca... tudo. Conversamos sobre tudo o que não se fala em dez minutos, e não chegamos a nenhuma conclusão além do óbvio...Não era quinta-feira.
Havia algo deveras estranho naquilo. Como pode alguém chamado Clarice existir em uma não-quinta-feira? É o que me pergunto até hoje. Perguntei a ela que horas eram, ela sorriu e olhou para o céu. Seu sorriso era triste. Antes de ir, perguntou o que eu fazia, eu lhe disse "Nada, só estou aqui tentando descobrir que dia é hoje.". E ela se foi... Às vezes me pergunto aonde ela anda de noite e todos os dias são segunda-feira. Inclusive quintas...
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Insônia
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
O veterano
I.
Eu era criança, caminhava para lá e para cá com minha cabeça grande e gorda. Era mais um dia. Fica ali balançado minhas coxas grossas, sentado ao chão enquanto esperava minha mãe. E por lá fiquei por mais de seis dias, ela nunca voltou. A fome começou a corroer minha barriga que de enorme começa a dar sinais de emagrecimento e minha cabeça ia crescendo mais e mais. Pensava todos dias nela aonde ela fora, o que diabos eu tinha feito.Será que eu era uma criança insuportável? Eu era um guri quieto sabe? Daqueles que ficavam ali catatônicos com um livro na mão. Nunca respondi a ela, sequer repetia os plavavrôes que ela bradava a vizinhança ouvir. Aquela senhora gorda com o rosto avermelhado e cabelos loiros, gritava.Era a minha mãe. Ainda é levando em consideração que mesmo morta ela que me gerou. A noite está quente, fico nostálgico. Onde ela foi aquele dia? Onde eu fui também pois tenho certeza de que não sou mais aquele menino gordo e cabeçudo. Acendo um cigarro tentando esquecer, e de lá até aqui nada mudou com exceção das minhas rugas, minha palidez e minha atual magreza. Toca Bach, pego uma garrafa de vinho.
II.
A manhã resplandece no meu quarto com o peso de bombas nucleares, seria Hiroshima meu quarto? A janela ficou aberta e a luz desenha um vulto feminino nas minhas no meu lençol todo furado. O primeiro impulso que tenho é acender um cigarro, mas é impossível fazer isso devido a dificuldade que tenho para me locomover. Não consigo pensar em algo diferente de mulheres dançando nuas, bebida e um punhado de verdinhas no meu bolso. Há quem diga que só sentimos falta do que não temos. E é exatamente isso que me falta. Não para me fazer feliz, mas para tapar estes buraquinhos dentro do meu peito.
Meu corpo moribundo já sente o peso da idade, lembro que já não sou mais criança e minha mãe assim como a maioria das mulheres que tive me abandonaram. Logo, precisava de uma saída útil hoje a noite. Primeiro preciso sair da cama.
III.
Algumas horas se passaram desde que consegui sentar na cama, agora sentando fica mais fácil acender um cigarro e pensar na vida. Já não trabalho há 10 anos o pouco de comida e dinheiro que tenho consigo através de uns amigos que tenho, aqueles que consegui quando estive na guerra. Essa é a merda de país que vivo, não reconhece seus maiores heróis. Ficam com aquele discursinho de que o povo isso, o povo aquilo. Mas herói não é o merda que esteve no front e morreu. Herói e aquele que carregou os cadáveres daqueles inúteis para que suas famílias pudessem chorar. E esses mesmos desprezam aqueles que carregaram os presuntos. "Ele poderia estar vivo se tu não fosse preguiçoso." É sou mesmo e daí? Por isso não levanto minha bunda da cama. E fico aqui pensando em merdas quase que todo o tempo. E de fato é bem melhor que viver neste mundinho hipócrita corporativista. Quem vou enganar, não dou a mínima eles que se fodam, assim como minha mãe e estas vagabundas. O tempo anda devagar.
IV.
Com o rair da lua esboço uma tentativa de sair da minha humilde casinha e me dirigir até o bar ou puteiro mais próximo. Tanto faz, a diferença entre sexo e bebida? E que no sexo temos que aguentar outra pessoa para poder desfrutar de algum prazer, já a bebida, só um basta. E mesmo assim, nem sempre é suficiente. Hoje faço sessenta e seis anos. Grande merda. Herói de guerra, filho abandonado, fracassado bêbado! O que a vida reserva para velhos que nem eu? Nem uma morte digna posso ter. Estranho que quando vou para a janela a moça do apartamente da frente vive se insinuando. Ela só pode ser pinel, não por eu ser velho. Mas pelo fato de que pareço um cadáver ambulante, orelhas enormes e nenhum dente na boca. Aposto que ela acha que vai me seduzir e quando eu chegar perto ela vai dizer não e assim enaltecendo o poder de conquista dela. Ah, elas poucos sabem que eu não caio nessas. Sou Eric Jurgens, veterano de guerra e problema social. Aquela moça não irá prevalecer.
Pego minha garrafa de Vodka.
V.
Sento na calçada para ver o que meu aniversário reserva. A vodka cai na minha boca, escorre até meu estomâgo sem nenhuma ardência. Vodkas baratas são as melhores. Elas tem um perfume de ânis e gosto de álcool barato. Melhor que perfume barato. Melhor que putas baratas. Ela está se aproximando. Uma mocinha uns vinte e poucos anos. O cabelo escuro dela se misturava com a noite. Ela exalava devassidão. Eu exalava a bebida barata e cigarros de palha. De qualquer forma ela vem sorrindo.
VI.
_Oi - Diz ela.
Não consigo reagir. Poderia dizer qualquer coisa. Mas nenhuma palavra veio à cabeça. Prefiro seguir bebendo.
_O senhor é mudo? - Disse sorrindo.
_Não.
_Ah, posso beber contigo? - Ela dá gargalhadas, nunca tinha visto dentes tão brancos.
_Não... Ah, quer dizer... Pode.
_Tá, vou te propor algo...
_Mal posso esperar...
_Posso ver sua casa.
_Não!
_Ah, deixa...Eu mostro meus peitos pro senhor.
_Certo. Mas tem que deixar eu tocar.
_Ah, tudo bem - Respondia a mocinha.
_____
VII.
Eles entraram...
Ela foi entrando, e ao passo que caminhava as peças de roupa caíam ao chão. Ele vislumbrava o corpo jovial da menina-mulher. Sua vida passava pelos olhos. Seis dias de espera, sessenta e seis anos. Os olhos cansado tornaram-se vermelho-fúria. A janela aberta... E os gritos.
No outro dia o jornal estampava a manchete:
Veterano de guerra assassina jovem a pauladas.
Eu era criança, caminhava para lá e para cá com minha cabeça grande e gorda. Era mais um dia. Fica ali balançado minhas coxas grossas, sentado ao chão enquanto esperava minha mãe. E por lá fiquei por mais de seis dias, ela nunca voltou. A fome começou a corroer minha barriga que de enorme começa a dar sinais de emagrecimento e minha cabeça ia crescendo mais e mais. Pensava todos dias nela aonde ela fora, o que diabos eu tinha feito.Será que eu era uma criança insuportável? Eu era um guri quieto sabe? Daqueles que ficavam ali catatônicos com um livro na mão. Nunca respondi a ela, sequer repetia os plavavrôes que ela bradava a vizinhança ouvir. Aquela senhora gorda com o rosto avermelhado e cabelos loiros, gritava.Era a minha mãe. Ainda é levando em consideração que mesmo morta ela que me gerou. A noite está quente, fico nostálgico. Onde ela foi aquele dia? Onde eu fui também pois tenho certeza de que não sou mais aquele menino gordo e cabeçudo. Acendo um cigarro tentando esquecer, e de lá até aqui nada mudou com exceção das minhas rugas, minha palidez e minha atual magreza. Toca Bach, pego uma garrafa de vinho.
II.
A manhã resplandece no meu quarto com o peso de bombas nucleares, seria Hiroshima meu quarto? A janela ficou aberta e a luz desenha um vulto feminino nas minhas no meu lençol todo furado. O primeiro impulso que tenho é acender um cigarro, mas é impossível fazer isso devido a dificuldade que tenho para me locomover. Não consigo pensar em algo diferente de mulheres dançando nuas, bebida e um punhado de verdinhas no meu bolso. Há quem diga que só sentimos falta do que não temos. E é exatamente isso que me falta. Não para me fazer feliz, mas para tapar estes buraquinhos dentro do meu peito.
Meu corpo moribundo já sente o peso da idade, lembro que já não sou mais criança e minha mãe assim como a maioria das mulheres que tive me abandonaram. Logo, precisava de uma saída útil hoje a noite. Primeiro preciso sair da cama.
III.
Algumas horas se passaram desde que consegui sentar na cama, agora sentando fica mais fácil acender um cigarro e pensar na vida. Já não trabalho há 10 anos o pouco de comida e dinheiro que tenho consigo através de uns amigos que tenho, aqueles que consegui quando estive na guerra. Essa é a merda de país que vivo, não reconhece seus maiores heróis. Ficam com aquele discursinho de que o povo isso, o povo aquilo. Mas herói não é o merda que esteve no front e morreu. Herói e aquele que carregou os cadáveres daqueles inúteis para que suas famílias pudessem chorar. E esses mesmos desprezam aqueles que carregaram os presuntos. "Ele poderia estar vivo se tu não fosse preguiçoso." É sou mesmo e daí? Por isso não levanto minha bunda da cama. E fico aqui pensando em merdas quase que todo o tempo. E de fato é bem melhor que viver neste mundinho hipócrita corporativista. Quem vou enganar, não dou a mínima eles que se fodam, assim como minha mãe e estas vagabundas. O tempo anda devagar.
IV.
Com o rair da lua esboço uma tentativa de sair da minha humilde casinha e me dirigir até o bar ou puteiro mais próximo. Tanto faz, a diferença entre sexo e bebida? E que no sexo temos que aguentar outra pessoa para poder desfrutar de algum prazer, já a bebida, só um basta. E mesmo assim, nem sempre é suficiente. Hoje faço sessenta e seis anos. Grande merda. Herói de guerra, filho abandonado, fracassado bêbado! O que a vida reserva para velhos que nem eu? Nem uma morte digna posso ter. Estranho que quando vou para a janela a moça do apartamente da frente vive se insinuando. Ela só pode ser pinel, não por eu ser velho. Mas pelo fato de que pareço um cadáver ambulante, orelhas enormes e nenhum dente na boca. Aposto que ela acha que vai me seduzir e quando eu chegar perto ela vai dizer não e assim enaltecendo o poder de conquista dela. Ah, elas poucos sabem que eu não caio nessas. Sou Eric Jurgens, veterano de guerra e problema social. Aquela moça não irá prevalecer.
Pego minha garrafa de Vodka.
V.
Sento na calçada para ver o que meu aniversário reserva. A vodka cai na minha boca, escorre até meu estomâgo sem nenhuma ardência. Vodkas baratas são as melhores. Elas tem um perfume de ânis e gosto de álcool barato. Melhor que perfume barato. Melhor que putas baratas. Ela está se aproximando. Uma mocinha uns vinte e poucos anos. O cabelo escuro dela se misturava com a noite. Ela exalava devassidão. Eu exalava a bebida barata e cigarros de palha. De qualquer forma ela vem sorrindo.
VI.
_Oi - Diz ela.
Não consigo reagir. Poderia dizer qualquer coisa. Mas nenhuma palavra veio à cabeça. Prefiro seguir bebendo.
_O senhor é mudo? - Disse sorrindo.
_Não.
_Ah, posso beber contigo? - Ela dá gargalhadas, nunca tinha visto dentes tão brancos.
_Não... Ah, quer dizer... Pode.
_Tá, vou te propor algo...
_Mal posso esperar...
_Posso ver sua casa.
_Não!
_Ah, deixa...Eu mostro meus peitos pro senhor.
_Certo. Mas tem que deixar eu tocar.
_Ah, tudo bem - Respondia a mocinha.
_____
VII.
Eles entraram...
Ela foi entrando, e ao passo que caminhava as peças de roupa caíam ao chão. Ele vislumbrava o corpo jovial da menina-mulher. Sua vida passava pelos olhos. Seis dias de espera, sessenta e seis anos. Os olhos cansado tornaram-se vermelho-fúria. A janela aberta... E os gritos.
No outro dia o jornal estampava a manchete:
Veterano de guerra assassina jovem a pauladas.
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terça-feira, 4 de agosto de 2009
Nos confins da morte.
Do diario de Jurgen Chapelle.
12/09/54 -
O sol desaparecia lentamente ao horizonte. O crepusculo que formou-se era de um vermelho acinzentado. Entre a relva de prédios e carros barulhentos e milhares de pessoas caiu lentamente a escuridão. Os tempos eram estranhos, sentia-se a discrepância. Outrora a cidade era um lugar menos agitado. As torres que vigiavam o público funcionavam em plena forma. Agora só restavam as carcaças e um fraco farol amarelado. Há um tempo atrás eram cinco guardas. Nestes dias ficavam apenas um. Havia um rapaz ali, era novo.
Seus olhos grandes e arrendodados espiavam terror. Eram brilhantes e ao mesmo tempo tão escuros. A pele clara era tomada por uma pigmentação vermelho-cobre devido à exposição a nosso clima tão árido e poluído. Vestia um casaco preto de couro, tinham muitos bolsos e aparentemente os usava para guardar múltiplas coisas. A sua pequenina mão segurava um dispositivo de localização, servia para comunicar os outros vigias e ao mesmo tempo informar sua localização. Eram tempos dificeis. Faltavam três anos para a minha aposentadoria. E sabemos que quando chegamos ao final da vida, tudo parece perder o sentido. Era sexta-feira. Aquela noite especificamente era cinco de março. Aparentemente seria mais um dia na minha vida, e muito menos ainda na vida daquele rapaz. Quantas vezes ja me peguei pensando "Nada vai acontecer". Mas quando pensamos isso é talvez porque queiramos que algo aconteça ardentemente e nossos olhos ficam cobertos pela névoa de tédio. Assim nossa mente freia qualquer impulsivo, e seria isso que nos transformaria em meros rôbos. Ou em mortos-vivos. Meu turno era o da noite. Aquele jovem se chamava Tanathos. Irônia dos pais talvez. Se soubessem o que o destino reservava para ele talvez colocariam outro nome. Perseu, Dionisio, ou qualquer outro nome. Mas acabaram por decretar a maior irônia que já vi em toda minha vida. O menino que se transformou em homem. Virou homem e depois morte. Eu observava muito, este foi o primeiro dia que conheci o que hoje posso chamar morte.
O relógio marcava dez e vinte nove, eu recém chegava para a troca de turno. Os anos mostraram que para ter um emprego contínuo bastava ser pontual, sorrir volta e meia. E principalmente fazer meu trabalho sozinho.
Subi pelas escadas que me levavam ao alto do farol. Todos os dias contava quantos degraus pisava. E obviamente aquele dia não fora diferente:
-450.
Por que diabos não tinha um elevador? Se o ser humano é capaz de construir tantas coisas, nossa tecnologia desperdiçava-se em coisas tão banais como teleporte, transmissão de dados super-rápidas e outras porcarias que não tinham tanta utilidade para a maioria das pessoas que não podiam pagar por elas.
Seria tão dificil assim ter um elevador?
Quando terminei de bater o ponto, eu o vi pela primeira vez. Seu rosto era senil no auge dos dezoito anos, a juventude mesclava-se com a velhicie tornando-o um ser no minimo digno de minha curiosidade.
Não o cumprimentei, e nem ele. Passamos um pelo outro como se fossemos dois fantasmas, ou dois operários que erámos em uma fábrica de produção em massa, rôbos. Ou mortos-vivos se preferir assim.
Alguns minutos depois disso ele voltou. Havia esquecido de bater o ponto, e como nenhuma hora-extra era paga, não fazia sentido prolongar o ponto.
-Senhor, onde é a máquina ponto? - Sua voz era baixinha e grave. Eu mal escutei.
Apenas apontei, e ele bateu o tal ponto.
Saiu da mesma forma que entrou. Silencioso.
Fiquei aquela noite imaginando o quê um jovem fazia trabalhando para a W.R vigilância.
Eu me perguntava porque eu fazia isso também, por longos anos fazia todo dia essa pergunta.
Toda noite eu ia para o farol, sentava ou lia algum livro. Livros de verdade, não o que estes jovens de hoje fazem com seus malditos computadores de pulso wireless. Lendo livros como se estivessem vendo as horas. Eu sempre preferi os de papel. Mais raros e caros, porém bem mais prazerosos. Acendia volta e meia um cigarro, era tão díficil encontra-los naquela época. A propaganda anti-tabagismo pareceu ter feito efeito no começo do século, mas não durou mais que vinte anos. Por vinte longos anos, o que se traficava na rua? Tabaco. Juro que se eu soubesse disso quando fosse jovem ia achar a piada mais hipócrita de todos tempos.
Nada de especial ocorreu aquela noite. A mesma merda se sempre:
Turno, vigilia, leitura, cigarro, ponto, casa, dormir.
Pelo menos não comigo. O dia acabou para mim. Fui para a casa aquele dia. Foi apenas o primeiro.
12/09/54 -
O sol desaparecia lentamente ao horizonte. O crepusculo que formou-se era de um vermelho acinzentado. Entre a relva de prédios e carros barulhentos e milhares de pessoas caiu lentamente a escuridão. Os tempos eram estranhos, sentia-se a discrepância. Outrora a cidade era um lugar menos agitado. As torres que vigiavam o público funcionavam em plena forma. Agora só restavam as carcaças e um fraco farol amarelado. Há um tempo atrás eram cinco guardas. Nestes dias ficavam apenas um. Havia um rapaz ali, era novo.
Seus olhos grandes e arrendodados espiavam terror. Eram brilhantes e ao mesmo tempo tão escuros. A pele clara era tomada por uma pigmentação vermelho-cobre devido à exposição a nosso clima tão árido e poluído. Vestia um casaco preto de couro, tinham muitos bolsos e aparentemente os usava para guardar múltiplas coisas. A sua pequenina mão segurava um dispositivo de localização, servia para comunicar os outros vigias e ao mesmo tempo informar sua localização. Eram tempos dificeis. Faltavam três anos para a minha aposentadoria. E sabemos que quando chegamos ao final da vida, tudo parece perder o sentido. Era sexta-feira. Aquela noite especificamente era cinco de março. Aparentemente seria mais um dia na minha vida, e muito menos ainda na vida daquele rapaz. Quantas vezes ja me peguei pensando "Nada vai acontecer". Mas quando pensamos isso é talvez porque queiramos que algo aconteça ardentemente e nossos olhos ficam cobertos pela névoa de tédio. Assim nossa mente freia qualquer impulsivo, e seria isso que nos transformaria em meros rôbos. Ou em mortos-vivos. Meu turno era o da noite. Aquele jovem se chamava Tanathos. Irônia dos pais talvez. Se soubessem o que o destino reservava para ele talvez colocariam outro nome. Perseu, Dionisio, ou qualquer outro nome. Mas acabaram por decretar a maior irônia que já vi em toda minha vida. O menino que se transformou em homem. Virou homem e depois morte. Eu observava muito, este foi o primeiro dia que conheci o que hoje posso chamar morte.
O relógio marcava dez e vinte nove, eu recém chegava para a troca de turno. Os anos mostraram que para ter um emprego contínuo bastava ser pontual, sorrir volta e meia. E principalmente fazer meu trabalho sozinho.
Subi pelas escadas que me levavam ao alto do farol. Todos os dias contava quantos degraus pisava. E obviamente aquele dia não fora diferente:
-450.
Por que diabos não tinha um elevador? Se o ser humano é capaz de construir tantas coisas, nossa tecnologia desperdiçava-se em coisas tão banais como teleporte, transmissão de dados super-rápidas e outras porcarias que não tinham tanta utilidade para a maioria das pessoas que não podiam pagar por elas.
Seria tão dificil assim ter um elevador?
Quando terminei de bater o ponto, eu o vi pela primeira vez. Seu rosto era senil no auge dos dezoito anos, a juventude mesclava-se com a velhicie tornando-o um ser no minimo digno de minha curiosidade.
Não o cumprimentei, e nem ele. Passamos um pelo outro como se fossemos dois fantasmas, ou dois operários que erámos em uma fábrica de produção em massa, rôbos. Ou mortos-vivos se preferir assim.
Alguns minutos depois disso ele voltou. Havia esquecido de bater o ponto, e como nenhuma hora-extra era paga, não fazia sentido prolongar o ponto.
-Senhor, onde é a máquina ponto? - Sua voz era baixinha e grave. Eu mal escutei.
Apenas apontei, e ele bateu o tal ponto.
Saiu da mesma forma que entrou. Silencioso.
Fiquei aquela noite imaginando o quê um jovem fazia trabalhando para a W.R vigilância.
Eu me perguntava porque eu fazia isso também, por longos anos fazia todo dia essa pergunta.
Toda noite eu ia para o farol, sentava ou lia algum livro. Livros de verdade, não o que estes jovens de hoje fazem com seus malditos computadores de pulso wireless. Lendo livros como se estivessem vendo as horas. Eu sempre preferi os de papel. Mais raros e caros, porém bem mais prazerosos. Acendia volta e meia um cigarro, era tão díficil encontra-los naquela época. A propaganda anti-tabagismo pareceu ter feito efeito no começo do século, mas não durou mais que vinte anos. Por vinte longos anos, o que se traficava na rua? Tabaco. Juro que se eu soubesse disso quando fosse jovem ia achar a piada mais hipócrita de todos tempos.
Nada de especial ocorreu aquela noite. A mesma merda se sempre:
Turno, vigilia, leitura, cigarro, ponto, casa, dormir.
Pelo menos não comigo. O dia acabou para mim. Fui para a casa aquele dia. Foi apenas o primeiro.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009
O outro lado da ponte escura.
"Meu rosto distorcido soa tão comum para mim" Era assim que se enxergava, diferente de tudo. Sua vida não havia sido das melhores, aquilo de se entregar e acreditar para ele era uma constante negativa. Mas afinal para quem não é. As horas passavam como trens, cheios de gentes e na volta estavam sempre vazios assim como seu coração. Talvez seja porque ele acreditasse que um dia o trem voltaria cheio, ou o reflexo da água mudasse de alguma maneira. Ele só sabia que nada sabia.
Seria mais um dia banal, ali sentado. Olhando para o nada, sentindo o nada.
Quem sabe o que ele precisasse fosse algo além daquela água, ou daqueles trens?
Recolhera as pedrinhas que tanto ocupavam sua mente, levantou-se e foi caminhar. Fazia um frio não muito congelante, a bruma era espessa. Parecia um grande algodão doce cinza. Caminhou devagar, os olhos perdiam-se. A cabeça ainda estava na água distorcida.
Ele queria fugir dali. Sonhava e aspirava com o diferente, estava distraído e não viu que caminhava sobre os trilhos do trem.
A luz pairou. Ele pensou "Pronto agora morri."
Acordara em um hospital, estava aleijado e realmente distorcido. Nada mudou e ele não morrera.
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